Ensinando Economia, Mercados Financeiros, Política Monetária

G-A: Multiplicador Monetário e os Agregados Brasileiros

Para entendermos o multiplicador monetário, é importante destacar que a quantidade de moeda ofertada em uma economia corresponde à soma do total de papel moeda em poder do público mais os depósitos à vista nos bancos comerciais e que a base monetária é o volume de moeda em circulação decidida pelo Banco Central.

Revistos esses conceitos, temos que o multiplicador monetário (m) é a relação entre a oferta de moeda (Ms) e sua quantidade em circulação dentro da economia (H). Assim, o multiplicador monetário decorre do comportamento do Banco Central ao determinar sua política de emissão, dos bancos comerciais e seus recursos em depósito, e também, da população ao realizar suas escolhas de poupar ou gastar. Para efeito de cálculo, temos: m=Ms/H.

Dessa forma, quanto maior forem os fatores que influenciam a base monetária, como reservas voluntárias e compulsórias, as taxas de redesconto (que é o valor cobrado pelos empréstimos do Banco Central aos bancos comerciais para que estes mantenham sua liquidez) e a propensão do público a poupar, menor será o multiplicador monetário.

Os Agregados Monetários no Brasil e seu comportamento nos últimos 10 anos

Os agregados monetários da economia brasileira, basicamente, são compostos pelos meios de pagamento e pela base monetária. São eles:

M0 (Base Monetária): Inclui o papel moeda emitido pelo governo em poder do público e as reservas mantidas pelos bancos comerciais, sejam elas obrigatórias ou voluntárias. Pode ser entendida como o dinheiro com poder de multiplicação, visto que aumentos em M0 leva a aumentos proporcionalmente maiores na oferta total de moeda, por isso é, também, conhecida como “Moeda de Alta Potência”.

M1: Refere-se ao dinheiro emitido pelo Banco Central que o público decide manter consigo, mais os depósitos que as pessoas decidem manter em suas contas correntes nos bancos comerciais, chamadas depósitos à vista.

M2: É composto por M1 mais os depósitos para fins de investimento, entre os quais citamos: depósitos especiais remunerados, depósitos de poupança, e títulos emitidos por instituições depositárias.

M3: Compreende todo o M2 mais as quotas de fundos de renda fixa (parcela das participações de investidores em fundos de investimentos) e de operações compromissadas com a SELIC, que ocorrem quando o vendedor assume o compromisso de recomprar os títulos que “emprestou” em uma data futura e com o pagamento de uma remuneração já acordada.

M4: Por fim, o M4 corresponde ao M3 mais os títulos públicos de alta liquidez. No caso brasileiro, são os títulos do Tesouro Direto, que apresentam liquidez diária.

Para entendermos como esses agregados se comportam ao longo do tempo, podemos analisar a variação de preços de títulos públicos, taxa de juros e oferta de moeda, com seus respectivos efeitos sobre o mercado. Quando olhamos para o processo de oferta de moeda, observamos a política monetária e como ela afeta o multiplicador e a base monetária.

Em nossa análise sobre os últimos 10 anos, daremos ênfase ao M1, pois todos os demais agregados são sequências de informações desse agregado 1 com algum outro instrumento financeiro. Assim, ao observar os gráficos M0, M1, M2, M3 e M4, percebe-se que entre 2008 e 2018, os agregados tiveram crescimento em quase todos os anos, caracterizando um período de estímulo ao consumo e de crescimento da economia.

Na Base Monetária (H), os fatores que explicam essa variação entre os períodos mencionados, destacam-se políticas expansionistas no mercado aberto de títulos públicos e o aumento dos depósitos à vista das instituições financeiras. Dessa forma, quando o BACEN realiza uma política de compra de títulos temos um aumento de H, ou seja, um aumento da oferta de moeda na economia.

Logo, M1 aumenta, os investimentos são realocados elevando a demanda por títulos, o que ocasiona um aumento no preço e, consequentemente, a queda na taxa de juros dos títulos, visto que Preço e Taxa de juros possuem relação inversa.

.

Referências:

Grupo A – Macro 2019

9 comentários em “G-A: Multiplicador Monetário e os Agregados Brasileiros”

  1. Primeiramente, gostaria de parabenizar o grupo pelo excelente texto realizado.
    Como muito bem colocado, a relação entre a base monetária e a oferta de moeda se dá por meio do multiplicador monetário. Este é afetado alíquota de depósitos compulsórios, isto é, a porcentagem dos depósitos (não apenas à vista) que devem ser mantidos no Banco Central. Essas alíquotas foram reduzidas em 2018. Sobre depósitos à visto, em abril, reduziu-se de 40% para 25% o compulsório sobre depósitos à vista, sendo novamente reduzida a alíquota em novembro, para 21% (essa última queda foi acompanhada de mudanças burocráticas em relação aos depósitos).
    Cabe citar que o multiplicador monetário aumentou de 1,30, em janeiro de 2018, para 1,35, no final do ano (de março para abril, aumentou de 1,33 para 1,36). Outro número interessante de se mostrar é a relação PMPP/M1, que oscilou entre 0,52 e 0,54 no ano passado.
    Os dados estão disponível no site do Banco Central (item “II.10 – Multiplicador e coeficientes de comportamento monetário – Média nos dias úteis do mês”):
    https://www.bcb.gov.br/estatisticas/indicadoresconsolidados

  2. Primeiramente, parabéns ao grupo pela postagem. É notável a relação entre os conceitos abordados por vocês, e os ensinados em sala de aula.
    Como visto em sala de aula o multiplicador monetário pode ser afetado por todos os seus agentes: o público, quando decide depositar moeda nos bancos comerciais ou não; os bancos comerciais ao decidirem o quanto irão emprestar; e o Banco Central, quando decide a quantidade de reservas compulsórias que os bancos devem manter.
    Já os agregados monetários são a classificação do ativo de acordo com a liquidez e são afetados diretamente pela base monetária. Nos gráficos trazidos, os agregados têm caráter crescente. O grupo disse que isso se deve a um aumento do estímulo ao consumo e de políticas de “open market” feitas pelo Banco Central. Sendo assim, é visível que, ao afetar a base, tais políticas afetam, em efeito cascata, todos os demais agregados.

  3. É interessante ressaltar a relação que há entre a taxa de juros e o preço dos títulos:
    Como essa ligação se dá?
    – O preço dos títulos é dado baseado em uma taxa de juros. O preço é o valor inicial da aplicação e as taxa de juros aplicadas a essa valor garantem a rentabilidade final. Dessa maneira, se a taxa de juros subir consequentemente o preço dos títulos cai, pois em um mesmo período e buscando a mesma rentabilidade o valor aplicado inicialmente deverá ser menor para gerar os mesmos resultados.

    Caso fique confuso de entender, há um exemplo apresentado no site do Tesouro Nacional:
    Suponha que você compre uma unidade do título Tesouro Prefixado 2016 (LTN) em 26/06/2012, a uma taxa de juros de 9,15% a.a. O preço que garante a rentabilidade de 9,15% ao ano durante o período de 26/06/12 a 01/01/16 é de R$ 735,29. Isso porque, a incidência da taxa de juros de 9,15% a.a. sobre R$ 735,29, durante 905 dias, resultará no montante de R$ 1.000,00 no vencimento da aplicação, valor final predeterminado para cada unidade desse tipo de título. Dessa forma, se os juros aumentarem, o preço inicial de partida do título terá que ser menor, de forma que se chegue no mesmo montante final de R$ 1.000,00 ao final da aplicação.

    Para calcular:
    Preço = remuneração final / (1+taxa de juros)^tempo.

  4. Como citado no texto, a taxa de redesconto é um dos instrumentos de política monetária do Banco Central. Pedir empréstimos para o BACEN é a última opção dos bancos com dificuldades em fechar o saldo diário e, quando isso acontece, a taxa de redesconto sobe e assim, sinaliza aos outros bancos comerciais que devem ser mais conservadores em relação á concessão de empréstimos, diminuindo-os e, consequentemente, reduzindo o multiplicador monetário e a oferta de moeda, e aumentando as reservas voluntárias. Entretanto, no Brasil, esse não é um artifício muito usado por conta da rapidez do nosso sistema de pagamentos, sendo o mais eficiente do mundo, pois as compensações são rápidas e, inclusive as operações com cartão de crédito são quase instantâneas; esse desenvolvimento é causa dos investimentos em tecnologias da informação na época da hiperinflação em que o giro da moeda tinha que ser rápido, caso contrário, contribuiria para um aumento ainda maior da inflação já exorbitante.

  5. Post interessante! Gostaria de ressaltar que existem duas maneiras de se classificar os agregados monetários, e então gostaria de saber as diferenças entre a classificação nova e antiga, além disso, a criação de moeda depende além da política monetária do BCB e das reservas voluntárias dos bancos comerciais, do comportamento do público em manter menos dinheiro em papel-moeda. Quais são os fatores que afetam esse comportamento do público e o seu efeito sobre o multiplicador monetário?

  6. É muito interessante analisar qual o papel das expectativas dos players nesse contexto. Como uma revisão de expectativas dos agentes podem influenciar a oferta de moeda independente da vontade do BCB, seja por meio do multiplicador ou do pmpp/dv; e como o BC reage tendo como a inflação seu objetivo primário. Só não entendi muito bem quais (ou como) fatores afetam o multiplicador

  7. Parabéns ao grupo pelo post esclarecedor!
    Complementando o que foi exposto pelo texto, é de suma relevância esclarecer e destacar também a diferença entre os tipos de reservas que são mantidos pelos bancos comerciais, uma vez que estes devem manter essa parcela do total de recursos captados em seus cofres com o intuito de satisfazer os saques diários e fornecer proteção contra eventuais aumentos de saques:
    – Reservas compulsórias: esse percentual é determinado pelo Banco Central, devendo ser recolhido obrigatoriamente aos seus cofres. Segundo o site oficial do Banco Central do Brasil, a alíquota dos recolhimentos compulsórios é um dos determinantes do multiplicador monetário, ou seja, do quociente da oferta de moeda em relação à base monetária. Por exemplo, diminuições na alíquota farão com que os bancos possam emprestar maior parcela das suas reservas e, portanto, aumentarão a quantidade total de moeda para uma dada quantidade de base monetária.
    Esse tradicional instrumento de política monetária também tem assumido outras funções, como funcionar como instrumento auxiliar para garantir a fluidez dos pagamentos no Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) e atuar como ferramenta macro prudencial que contribui para a estabilidade do sistema financeiro.

    – Reservas voluntárias: São as reservas que os bancos decidem manter para atender as necessidades de liquidez inerentes à atividade bancária. Elas podem ser mantidas quando a inadimplência do público for muito alta (durante períodos de crise econômica, por exemplo), como também a fim de evitar a necessidade de recorrer ao redesconto por liquidez.

  8. Prezados, assuntos muito interessantes foram abordados no post. Para tanto, gostaria de trazer/agregar aqui exemplos que diferenciam M1 de M2, vocês disseram que M2 é igual a M1 adicionado de depósitos para fins de investimentos, evidenciando-os coloco: Certificado de Depósitos Bancários (CDB) e Interbancários (CDI). Acho importante mostrar esses exemplos, pois é uma coisa que nós ouvimos muito mas não sabemos muito bem onde eles entram nesse jogo todo. Além disso, essa dinâmica analisada pelo post de influências de políticas do governo, decisões do público e dos bancos comerciais é super válida e atrativa, buscamos exemplos em 2002, para análise: esse ano em comparação ao seu anterior (2001) teve diferentes trajetórias de crescimento do agregado monetário M1. A taxa de crescimento em 12 meses elevou-se de 4,1%, em novembro de 2001, para 20% em igual mês de 2002. Isso devido a oscilações no preço dos títulos públicos, liberações do FGTS e aumento dos gastos dos governos com a eleição (Idem https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/boxrelatoriosinf/RI200212B2P-ri200212b2p.pdf). Tais relações são curiosas e são legais de serem observadas!

  9. Parabéns ao grupo! Tiveram muita competência em aliar os conhecimentos vistos em sala com dados técnicos e relevantes do Brasil. Aprofundando um pouco mais o que foi dito pela Camila Soares Cafalcante, o Sistema de Pagamentos no Brasil, o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), é o conjunto de instituições, regulamentos e procedimentos envolvidos na transferência de fundos, operações com moeda estrangeira e outras operações com ativos financeiros. Apesar de todo o sistema financeiro no Brasil, em geral, não ser utilizado como referência no exterior, o SPB se tornou referência mundial. Por conta do elevado grau de automação, do elevado volume de documentos processados e do prazo recorde de liquidação dos documentos, o nosso sistema de pagamentos é considerado pelos organismos internacionais um dos melhores. Nesse sentido, vemos que, apesar de toda a instabilidade existente no período da hiperinflação, esta foi o motivo primordial para estimularmos o desenvolvimento tecnológico que hoje nos poupa de utilizar instrumentos como a taxa de redesconto. Assim, se olharmos de uma perspectiva clássica, foi por meio do contexto da hiperinflação que pudemos ter uma alteração em uma variável real da economia (tecnologia).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s