Ensinando Economia, Inflação, Nível de atividade

G-B: O caso brasileiro da Curva de Phillips

Os últimos posts publicados trataram de dois assuntos sendo eles, respectivamente: Mercado de Trabalho e Inflação. Após compreender os significados das diferentes classificações da população no mercado de trabalho e entender os diferentes índices de inflação, iremos analisar a relação entre desemprego e inflação para o caso brasileiro.

Em 1958, A. W. Phillips formulou um diagrama que representava a taxa de inflação com relação à taxa de desemprego no Reino Unido anualmente de 1861 a 1957. O diagrama evidenciou uma relação negativa entre inflação e desemprego. Quando o desemprego era baixo, a inflação era alta; quando o desemprego estava alto, a inflação estava baixa.

A Curva de Phillips funciona da seguinte maneira: dado o nível esperado de preços — que os trabalhadores simplesmente tomam como o nível de preços do ano anterior (isso será importante mais à frente) — o desemprego mais baixo leva a um salário nominal maior. Um salário nominal mais elevado leva a um nível de preços mais alto. Juntando essas etapas, o desemprego mais baixo leva a um nível de preços mais alto neste ano em relação ao nível de preços no ano anterior, ou seja, a uma inflação maior. Esse mecanismo pode ser chamado de espiral de preços e salários, uma expressão que representa bem o mecanismo:

Assim, a corrida entre preços e salários resulta em uma inflação contínua de salários e preços.

A curva de Phillips tornou-se fundamental para o pensamento macroeconômico e para a política macroeconômica. Ela implica em diferentes combinações que países poderiam escolher de desemprego e inflação. Um país poderia alcançar um desemprego baixo se estivesse disposto a tolerar uma inflação mais alta, ou poderia atingir a estabilidade do nível de preços — inflação zero — se estivesse disposto a tolerar um desemprego mais alto.

Um exemplo em que a curva ocorre é nos Estados Unidos de 1948 a 1969, em que a diminuição contínua da taxa de desemprego esteve associada a um aumento contínuo da taxa de inflação:

Observando o caso brasileiro:

Primeiro, levando em consideração apenas o período de hiperinflação:

Agora, apenas o período de estabilidade da inflação, após o Plano Real.

Ao final, juntando os dois períodos:

Analisando os gráficos elaborados, não há a ocorrência de uma Curva de Phillips para o caso brasileiro. Vamos entender o porquê e como o papel das expectativas se relaciona:

Nos períodos da hiperinflação, a persistência da inflação levou os trabalhadores e as empresas a reavaliarem como formavam suas expectativas. Havia grande incerteza sobre a inflação, impedindo que os trabalhadores conseguissem criar expectativas sobre a inflação futura, para que pudessem negociar os novos salários.

Como a inflação era consistentemente positiva, ano após ano, as pessoas ao formarem suas expectativas, começaram a levar em conta a presença e a persistência da inflação. Essa mudança de como se formavam as expectativas modificou a natureza da relação entre desemprego e inflação.

Outro fator que dificultou fortemente a definição das expectativas futuras foram as trocas de moeda, que ocorreram em vários momentos como uma tentativa de solução para a alta inflação.

Existe também a Curva de Philips Modificada, nela é possível de se notar a relação que ocorre entre um aumento ou diminuição da inflação entre os anos; para um desemprego baixo, a variação da inflação é positiva e para um desemprego alto, a variação da inflação é negativa. Podemos notar isso com o exemplo dos EUA, a partir da década de 1970:

Analisando o caso Brasileiro nos períodos de hiperinflação, estabilidade da inflação e ambos períodos:

No nosso país é possível notar que essa relação não é muito perceptível. Existe uma relação negativa entre a variação da inflação e o desemprego médio. Porém, tal relação não ocorre tão claramente, dados os motivos já citados. Levando em conta os 30 anos analisados é notável que, no nosso caso, a inflação não varia proporcionalmente ao desemprego.

Referências:

http://www.ipeadata.gov.br/Default.aspx acesso em 06 de maio de 2019

https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme/default.shtm acesso em 06 de maio de 2019

BLANCHARD, Oliver. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2011.

Grupo B – Macro 2019

12 comentários em “G-B: O caso brasileiro da Curva de Phillips”

  1. A partir do gráfico interativo é possível acompanhar o comportamento da curva através dos anos e perceber que apenas a partir do ano de 1998 a curva começa a ter, por um período pequeno, um aspecto semelhante à de uma curva de Philips decrescente, com a relação inversa entre taxa de desemprego e inflação acentuada, o que é bem interessante haja vista que, para diversos estudiosos que fizeram estimações sobre a curva de Philips, esta teria um formato linear (como observado em quase todos os períodos, tanto de hiperinflação quanto de estabilidade da inflação).
    Nesse ano de 1998, a variação do IPCA caiu de 5,22% (media dos 12 meses de 1997) para 1,65% (media dos 12 meses de 1998), enquanto a taxa de desemprego foi de 5,7% para 7,6%. Alguns motivos para a queda no índice de preços, que refletiu na queda do IPCA foram os alimentos, a habitação, transporte e aparelhos eletrônicos. Nesse mesmo período por conta da recessão experimentada no final do ano, contribuiu para um aumento de 15% no desemprego (taxa foi de 7,8% para 9%). Unindo no gráfico os dados que foram, em 1998, marcantes, apesar da dificuldade dos agentes em formarem suas expectativas, foi possível estabelecer uma relação hipotética entre ambos os fatores para a configuração de uma curva de Philips decrescente.
    Matéria da Folha de São Paulo, de 1998, sobre a baixa na inflação: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi29079802.htm
    Matéria da Folha de São Paulo, de 1998, sobre a alta no desemprego: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0112199926.htm
    Série histórica do IPCA com os números que configuram a baixa no período tratado: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html?=&t=downloads

  2. Desde a revolução das expectativas racionais iniciada por Robert Lucas e Thomas Sargent temos o colapso da curva de Phillips. Isso pode ser observado no Brasil desde o início da crise de 2014 por causa da estagflação (desemprego e alta inflação) na economia. Em 2015, por exemplo, o país sofreu uma taxa de inflação de 10,67% (IPCA) e uma taxa de desemprego de 9%, contradizendo a noção original da curva de Phillips Nos anos subsequentes a inflação diminuiu e o desemprego subiu como na relação expressa na curva, chegando em 2017 com uma taxa de inflação de 2,95% e uma taxa de desemprego de 11,8%.
    Fontes: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html?=&t=series-historicas ; https://br.advfn.com/indicadores/pnad

  3. Como mostrado no post, a curva de Phillips estabelece a relação negativa entre a inflação e o desemprego. Pelo gráfico que demonstra os dados pós plano real (1994), é possível perceber uma redução da inflação ao longo dos anos de 1995 (22,41%), 1996 (9,56%), 1997 (5,22%) e 1998 (1,65%) e como se relacionou com o desemprego médio em 1995 (4,6%), 1996 (5,4%), 1997 (5,7%), 1998 (7,6%). Nota-se que, apesar de em 1995 a inflação ter sido bem maior que em 1996, a taxa de desemprego médio se manteve próxima. Em 1998 a inflação teve uma diminuição significativa e o desemprego respondeu a essa queda com um aumento. No segundo caso podemos perceber um comportamento próximo da curva de Phillips.

    https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html?edicao=20932&t=series-historicas
    https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9183-pesquisa-mensal-de-emprego-antiga-metodologia.html?edicao=9185&t=resultados

  4. É interessante notar como o papel das expectativas e as características estruturais do mercado se relacionam e podem “produzir” representações um tanto quanto “estranhas” do fato estilizado da Curva de Phillips em um plano (Desemprego , Variação da Inflação). Gostaria de ressaltar as características estruturais do mercado e como a informação assimétrica pode influenciar mecanismos de incentivo, no caso, temos uma situação de “Informação Imperfeita”, ou “Ação Oculta”, nessa situação, os agentes são incapazes de observar ações relevantes dos outros agentes, no caso apresentado pelo post, essa assimetria de informação é possivelmente atribuída ao período de hiperinflação brasileiro, no qual, os agentes tiveram que reajustar suas expectativas, no entanto, a informação era de certa forma confusa, pois a incerteza era muito alta, os agentes tinham de decidir se tomavam o risco de aparecer nos mercados e não conseguirem comprar seus produtos básicos, ou reajustar suas expectativas para tomar tal risco em um período posterior. A situação de incerteza por parte dos agentes altera seus incentivos, podendo desviar-se do seu objeitvo inicial e influenciar decisões em tempos futuros, talvez por causa desses aspectos, não temos uma representação muito clara da Curva de Phillips para o caso brasileiro.

  5. Achei interessante essa comparação entre o caso americano e o caso brasileiro. No primeiro caso é possível notar claramente a relação inversa entre desemprego e inflação, enquanto que no segundo é difícil observar uma correlação negativa clara, além da presença de vários outliers.

    Outra questão que me chamou a atenção é a disparidade de escalas. No caso americano, em 21 anos, a taxa anual de inflação não ultrapassava o intervalo -1 e 8% e a taxa de desemprego estava entre 3 a 7%. Já no caso brasileiro, em 11 anos, a inflação oscilou de 0 a 2500% e a taxa de desemprego médio permaneceu no mesmo intervalo do caso americano. Ou seja, num intervalo de tempo 50% menor, a inflação brasileira oscilou mais de 300% a mais do que a inflação americana para uma mesma faixa de taxa de desemprego.

    Em resumo: se no caso inglês e americano a curva de phillips foi considerada, a época, um fato estilizado; aqui, no Brasil, a relação que se nota entre inflação e desemprego é, no mínimo, extremamente baixa. Até mesmo em períodos mais recentes (onde a inflação já se encontrava em patamares muito inferiores aos do período de hiperinflação), e portanto, em taxas comparáveis como o caso dos EUA e Inglaterra, o fato estilizado nesses países não se mostrou condizente com a realidade brasileira.

    Por fim, fiquei com a impressão de que as expectativas dos agentes ficaram bem longe de se aproximarem da caracterização “racionais”. Entendo o fato de que é uma descrição que se aproxima do comportamento médio dos agentes de mercado, no entanto, esse tipo de raciocínio só parece coerente em períodos minimamente de estabilização econômica, como o caso inglês e americano. Em cenários extremos, como por exemplo o de hiper inflação brasileira, falha em explicar o tipo de mecanismo de tomada de decisão por parte dos agentes e seus reflexos na fixação de preços por parte das firmas em seus produtos.

  6. A NAIRU (non-accelerating inflation rate of unemployment) é a taxa de desemprego que não alteraria a taxa de inflação, sendo esta constante/estacionária. Assim, se o objetivo for a redução da inflação, então a taxa de desemprego deve estar acima da NAIRU, se for menor, haverá um aumento da inflação. O paper “Nairu, Inflação e Curva de Phillips no Brasil: novas evidências a partir de um modelo tempo-variante” tem o principal objetivo de estimar os valores da NAIRU brasileira desde março de 2002 a outubro de 2015 e a média estimada no período foi de 7,48% (no início da amostra (até 2003), o valor médio estimado foi de 8,13% e no final , de 2010 a 2015, foi de 6,9%).Conforme as tabelas e as fontes dos dados sobre o índice de inflação IPCA e o nível de desemprego apresentados pelo grupo para o caso brasileiro da Curva de Phillips, o nível de desemprego médio esteve consideravelmente mais alto do que a NAIRU média de 7,48%, apresentada para o período, de 2002 a 2009, estando entre 12,34% e 7,9% e com a inflação em queda; e de 2010 a 2015, o desemprego estava mais baixo do que a NAIRU (estando entre 6,83% e 4,82%) e a inflação apresentando uma tendência de alta.

    Paper em questão: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-41612017000100039

  7. No modelo da curva de Phillips, ainda que pareça ser razoável como são tomados esses níveis esperados de preços, não me parece algo tão preciso. Tenho a impressão de que devem existir muitas variáveis não observadas com correlação a inflação que são deixadas de lado, podendo assim interferir nos dados. Observar esta diferença entre os países e os intervalos de tempo utilizados chega a despertar uma certa curiosidade sobre a teoria de formação de expectativas atualmente aceita, e qual seria uma possível maneira de melhora-la.

  8. De 2011 a 2013, o governo realizou uma política monetária expansionista, levando a Selic meta de 12,50% a.a. para 7,25% a.a. Já o produto cresceu 3,97% em 2011, 1,92% em 2012 e 3,00% em 2013. O nível de preços (medido pelo IPCA) subiu 6,5% em 2011, 5,91% em 2012 e 6,41% em 2013. Já nos períodos seguintes, o crescimento desacelerou, sendo de 0,50% em 2014 e negativo em 2015 e 2016 (3,55% e 3,11%), enquanto a inflação chegou a 10,67% em 2015.
    É difícil tirar conclusões apenas com base nesses dados pois, no período, a economia sofreu mais inúmeros choques além da política monetária expansionista (isto é, não é possível realizar uma análise ceteris paribus apenas com estes dados, exigindo um maior ferramental econométrico). Todavia, aparentemente os dados em questão corroboram que, no curto prazo, é possível se realizar políticas econômicas visando alterar o produto, todavia, não há eficácia no médio prazo (pois, como vimos, o produto se retraiu), sendo que elas apenas afetam o nível de preços.

  9. A primeira imagem do espiral de preços e salários propõe apenas um aumento contínuo da inflação, porém essa tendência não está completa, uma vez que não haveria estabilidade na economia, assim é preciso pensar também nos aspectos que garantem uma flutuação próxima do que chamamos de equilíbrio da economia, como a rigidez desses eventos, tanto do ajuste de salários quanto da taxa de markup das empresas, tanto que os gráfico de vários consecutivos expressam curvas muito pouco inclinadas; mesmo que o caso brasileiro seja “estranho” a curto prazo devido à anomalias de expectativa citadas no texto, o tradeoff não ocorre a longo prazo na literatura mais atual sobre a curva de phillips e expressamente também não é visto nos gráficos.

  10. É interessante analisar como cenários de hiperinflação influenciam nas expectativas dos agentes econômicos que não se limitam ao curto e médio prazo. Achei essa reportagem (http://g1.globo.com/economia/noticia/2014/04/heranca-da-hiperinflacao-indexacao-ainda-afeta-grande-parte-dos-precos.html) que mostra como o cenário de hiperinflação brasileiro ainda afeta a indexação de preços e expectativas das pessoas. Acredito que além disso, esse alto nível de indexação possa ser explicado por instabilidades políticas e receios com relação a algumas autoridades monetárias que se mostravam menos rigorosos em combater altas da inflação.
    É importante observar também que quando há a ocorrência de índices de inflação muito altas, sua variação também tende a ser maior, levando os agentes econômicos a cometerem erros sistêmicos devido a dificuldade de prever os impactos de políticas monetárias. Assim, poderíamos concluir que esse seria um dos motivos que explicam a diferença observada ente os gráficos de dispersão da Curva de Phillips entre os caso brasileiro e o americano, já que a inflação dos Estados Unidos historicamente é mais baixa e, consequentemente, possui variações menores, facilitando com que os agentes econômicos aproximem suas expectativas racionais dos índices observados.
    Acho que seria interessante buscar dados também de outros países que possuem cenários hiperinflacionários (como Argentina e atualmente Venezuela) para analisar suas Curvas de Phillips e como os agentes econômicos desses países realizariam suas expectativas para a inflação.

  11. Bastante interessante o post. Nele podemos ver como o fator humano muda tudo. Nos EUA, temos uma relação não-linear e negativa entre inflação e desemprego, contudo no Brasil isso não segue a mesma lógica. Isso devido as mudanças de incentivos (mudança de moedas como Plano Real e outros) ao público, que surpreende formando seus salários tomando outra visão acerca da inflação.

  12. Para o caso do Brasil, as estimativas da NAIRU variaram entre 7.5% a 8.5%, no período de 1996 (T2) a 2006 (T4). Alves e Correa (2014) utilizaram uma Curva de Phillips desagregada (inflação de bens comercializáveis e não comercializáveis) para estimar três hiatos (NAIRU, NAICU e hiato do produto) no período de 2001 a 2012. Especificamente em relação à NAIRU, os autores concluem que houve uma redução no seu valor no período recente (no início da
    amostra seu valor seria de 11-12% e no final 6.3%) e que a NAIRU estaria acima da taxa de desemprego desde meados de 2010. No entanto, as estimativas apresentam intervalo de confiança bastante amplo, refletindo a incerteza em relação ao valor desta variável.7
    Dada a existência de poucos estudos que buscam estimar a NAIRU para o Brasil, o presente trabalho buscar contribuir com a literatura sobre o tema, utilizando o modelo proposto por Chan, Koop e Potter (2015), a fim de fornecer novas estimativas dessa variável não observada para o período recente. De fato, como afirmado por Silva Filho (2010), parece haver um baixo interesse na estimação da taxa natural de desemprego, apesar de sua importância macroeconômica, tanto teórica quanto prática. Já Lima (2003), afirma que devido à pequena
    quantidade de trabalhos a respeito do assunto no Brasil, não há um alto grau de confiança dos resultados, o que depende drasticamente do aumento da pesquisa nesta área.

    http://www.scielo.br/pdf/ee/v47n1/0101-4161-ee-47-01-0039.pdf

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