Ensinando Economia, Nível de atividade

G-D: A Lei de Okun e o Brasil

O último post publicado tratou sobre a Curva de Phillips, que relaciona a taxa de desemprego à taxa de inflação. Neste post, vamos compreender a conexão e taxa de desemprego e crescimento do PIB, descrita pela Lei de Okun.

Sob simplificações de que (i) emprego e produto variavam proporcionalmente e (ii) a força de trabalho é constante, chegaríamos à conclusão de que um aumento de, por exemplo, 2% no PIB geraria um aumento no emprego de 2% e uma diminuição do desemprego de 2%. Vamos atribuir alguns elementos algébricos para melhor compreensão: sejam ut a taxa de desemprego no ano t, ut-1 a taxa de desemprego no ano t-1 e gyt a variação do PIB de t-1 para t, chegamos nesta equação:

                                            ut – ut-1 = – gyt       (Eq. 1)

Veremos agora que essa relação não é verdadeira. Pode parecer contraintuitivo, mas não se aborreça! Esta é a beleza da natureza empírica da contribuição de Okun. Se fosse verdade que PIB e desemprego são perfeitamente negativamente proporcionais, um gráfico de dispersão de Δ%desemprego versus Δ%PIB deveria apresentar uma linha de tendência com inclinação de -1, como abaixo:

Porém, em 1962, Okun coletou os dados de desemprego e PIB para os EUA e verificou que uma outra equação representava melhor o mundo real:

                                               ut – ut-1 = -0,4(gyt – 3%)        (Eq. 2)

Com isso, percebe-se que para manter a taxa de desemprego constante, não basta que o PIB fique constante. Para este caso, a taxa de desemprego só ficará constante (ut – ut-1 = 0) se gyt = 3%. Pensando mais, vemos que há um intervalo em que o PIB cresce, porém a taxa de desemprego também cresce. Isto acontece para os casos nos quais o crescimento do PIB é menor do que a taxa normal de crescimento, que neste caso específico dos EUA era de 3%.

Dois fatores importantes impactam na formação do gyt: a variação da força de trabalho e  da produtividade do trabalho. Um aumento na força de trabalho deve vir acompanhado de um aumento igualmente proporcional no emprego para que a taxa de desemprego não se altere. Vamos supor que a força de trabalho aumentou 2%, logo o emprego aumentou 2% e, como Y=N, temos um aumento no PIB de 2%. O outro fator relevante é a produtividade do trabalho (produto por trabalhador). Suponhamos que neste mesmo experimento a produtividade aumentou em 1%. O efeito final sobre o crescimento do PIB é a soma dos dois fatores, 3%. Como vimos, nesta situação não haverá alteração na taxa de desemprego, mesmo que haja um aumento no produto. A Equação 2 é extremamente específica e descreve as condições dos EUA na época em que os dados foram coletados, mas foi de grande importância para que pudéssemos captar a estrutura da relação PIB x desemprego. Uma equação mais genérica é:

                              ut – ut-1 = – β(gyt – g*y)          (Eq. 3)

Daqui podemos tirar dois conceitos muito interessantes, o β e g*y. Depois de pensar bem você perceberá que o β, o coeficiente de inclinação reta de regressão, representa o quão sensível à variação do PIB é o desemprego. Na já obsoleta Equação 1, o β era de -1. No caso dos EUA, é -0,4. Mostrando que uma queda de 1% no PIB gera um aumento na taxa de desemprego de apenas 1%*0,4 = 0,4%. Logo, percebemos que o emprego tem sensibilidade menos que proporcional às variações do Produto. Pensemos na lógica econômica por trás disso: as empresas são cautelosas e não mudam significativamente sua estrutura produtiva ao sabor das flutuações do PIB. Assim, se a empresa percebe que está vendendo mais, no curto prazo, ela pedirá para que seus funcionários façam horas-extras. Se forem momentos de queda nas vendas, há um custo para treinar os trabalhadores e dispensá-los pode não valer a pena já que provavelmente as vendas voltarão ao normal.O g*y é taxa natural de crescimento da economia.

Vejamos como fica a regressão para o Brasil (1983-2018):

Finalmente, vemos que o g*y brasileiro é aproximadamente 3% (onde ΔU = 0) e β≅ -0,05.

Referências:1) https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme/default.shtm acesso em 26 de maio de 2019 
2) http://www.ipea.gov.br/cartadeconjuntura/index.php/series-estatisticas-conjunturais-2/ acesso em 26 de maio de 2019
3) BLANCHARD, Oliver. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2011.

Grupo D – Macro 2019

12 comentários em “G-D: A Lei de Okun e o Brasil”

  1. Como analisado pelo grupo, o g*y brasileiro é aproximadamente 3% (onde ΔU = 0) e β≅ 0,05.
    Sabemos que no caso dos EUA, β é 0,4, mostrando que uma queda de 1% no PIB gera um aumento na taxa de desemprego de apenas 1%*0,4 = 0,4%.
    Se compararmos o β estadunidense e o β brasileiro, vemos uma bruta diferença. Enquanto nos EUA β é 0,4, no Brasil é 0,05. Ou seja, nos EUA, a sensibilidade do desemprego à variação do PIB é 8 vezes maior que no Brasil. Assim, o ajuste do emprego devido a variações no PIB nos EUA é 8 vezes maior.
    Temos que esse ajuste do emprego depende, principalmente, de fatores como a organização interna das empresas e as restrições legais e sociais a respeito de admissões e demissões. Portanto, é normal e esperado que tenhamos diferenças nos β entre países. Contudo, é um interessante indicador de como a organização interna das empresas e as restrições legais e sociais afetam na variação de emprego em situações de pequeno ou grande crescimento do produto.

  2. Apesar do fato de que os eonomistas apoiam as proposições da Lei de Okun, ela é considerada imprecisa, já que variáveis numerosas estão associadas com mudanças na taxa de desemprego e de crescimento do produto. Outro fato interessante sobre a Lei de Okun é que mercados de trabalho com menor flexibilidade tendem a ter coeficientes β mais altos. Isto é, a sensibilidade da variação da taxa de crescimento do produto para a taxa de desemprego é maior.
    Por causa do crescimento da força de trabalho e da produtividade, que aumentam o desemprego o PIB real deve crescer a uma taxa perto de sua taxa potencial para manter a sua taxa de desemprego estacionária. Ou seja, para diminuir a sua taxa de desemprego a economia deve crescer a uma taxa acima de sua taxa natural.
    Fontes: https://www.investopedia.com/terms/o/okunslaw.asp; https://www.investopedia.com/articles/economics/12/okuns-law.asp

  3. Errata: O β é um número entre 0 e 1. Logo, não pode ser negativo. A reta tem inclinação negativa pois o negativo já está na função da reta da regressão.

  4. Como apresentado pelo grupo, a Lei de Okun versa sobre a relação entre crescimento do PIB e desemprego, levando em consideração que a variação do PIB é influenciada pela variação da força e produtividade do trabalho. Entretanto, essa influência – variação do PIB e variação da produtividade do trabalho – não é necessariamente positiva. Em 2018 o aumento da força de trabalho levou a uma queda no desemprego.
    Nesse caso, segundo o IBGE, no segundo trimestre do ano, a economia cresceu 0,2% e o desemprego recuou para 12,4%. Esses números encaixariam na relação ut – ut-1 = – β(gyt – g*y) pois se relacionam de maneira negativa. Mas essa variação do PIB deveria se relacionar positivamente com a variação da força produtiva, o que não acontece. A entrada em massa de trabalhadores no mercado informal não se traduz em um aumento da produtividade. Entre o terceiro e quarto trimestre de 2017 o IBGE registrou uma queda na taxa de variação da produtividade de 0,2%.
    Portanto a relação estabelecida pela Lei de Okun, pelo menos no caso brasileiro, deve ser analisada com ressalvas. A fórmula muitas vezes condiz com os dados coletados, mas as relações incutidas podem não ser confirmadas.
    Fontes: https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/08/31/desemprego-cai-mas-aumento-do-trabalho-informal-dificulta-retomada-da-economia.ghtml

  5. Vemos que chegamos em um ponto interessante do pensamento econômico. O post adapta a relação taxa de desemprego e crescimento da renda para o Brasil e vemos que há uma grande diferença entre a sensibilidade do desemprego a taxa de crescimento do PIB. No brasil, é muito baixa, próxima a 0, isto quer dizer que é necessário uma grande variação no produto em comparação aos EUA para garantir uma mesma variação positiva/negativa no emprego. Analisando com números, se tivermos no Brasil uma taxa de variação do produto igual a 23% , o que incorre uma variação de 1% no emprego, no caso dos EUA só será necessário um variação de 5,5% quase uma 1/4 de diferença. Isso tudo é entendido a partir do conhecimento que o Brasil é um país emergente e os EUA, desenvolvido.

    1. Analisando esses dados, vemos que há uma diferença muito significativa entre um país e outro. Por que existe uma variação tão grande? Pegando o gancho do Edvaldo sobre o Brasil ser um país emergente, me lembrou muito a aula onde nos foi apresentado que o emprego, a quantidade de pessoas trabalhando não é o único fator para o crescimento do produto de um país e ainda mais do Brasil que apresenta uma série de áreas que necessitam de melhorias para gerarem mais resultados. Os EUA possuem um ótimo desenvolvimento tecnológico, possuem instituições fortes e por isso o PIB acaba refletindo de uma forma mais intensa sobre a variável emprego e podemos enxergar melhor os resultados dessa variação. Já no Brasil um país emergente, como dito acima, existem muitas áreas que necessitam de melhorias e reparos para que essas variáveis reajam desta mesma forma. Acredito que essa diferença mostra bem o quanto ainda precisamos crescer e quanta coisa temos para mudar.

  6. A lei de Okun, como apresentado pelo grupo, demonstra que o o produto e o desemprego caminham de maneiras opostas, ou seja, quando um aumenta, o outro diminui, entretanto, a taxa de crescimento do produto acumulada e o nível de desemprego no Brasil apresentaram uma relação inversa a partir de 2011, que o desemprego diminuiu em 0,8 pontos percentuais e o PIB também reduziu em 3,5, ocorrendo a mesma relação em 2012, 2014 e 2015 – segundo dados do IBGE – contrariando as evidências tratadas nessa teoria econômica. Esses desvios podem ser explicados pelo aquecimento do setor de serviços entre esses anos (intensivo em mão de obra), por conta da redução da PEA através da redução da força de trabalho e da entrada demorada dos jovens no mercado de trabalho e, inclusive, pela contração da produtividade do trabalho causada pela inflexibilização das leis trabalhistas, segundo o paper “Crescimento Econômico e Desemprego: Uma Estimativa da Lei de Okun Pós Plano Real” (https://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/18535/DISSERTA%C3%87%C3%83O%20ANA%20PAULA%20F%20SAMARY%20VERS%C3%83O%20FINAL.pdf)

  7. Dentre os fatores que afetam a taxa de crescimento, gostaria de fazer o meu comentário em relação a produtividade do trabalho.

    Sobre o tópico em específico, encontrei um levantamento realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) que mostra que o empregado brasileiro possui uma das menores taxas de produtividade em um estudo que levou em consideração 58 países.

    O Brasil gera, em média, US$16,80 (ou R$54,09) por hora trabalhada, o que o coloca em uma posição de produtividade 50 dentre uma lista que inclui 68 países. Na Alemanha, por exemplo -país modelo em produtividade- os empregados são quatro vezes mais produtivos do que os brasileiros, e trabalham, em média, 340 horas menos por ano que o trabalhador no Brasil.
    O que mais me chamou a atenção, no entanto, foi o prognóstico realizado. Destaco o trecho: “Para especialistas, a baixa qualificação da mão de obra brasileira, a falta de investimento em inovação, o perfil do setor produtivo, que concentra a maior parte da mão de obra em setores mais informais — como comércio e serviços — e a economia ainda bastante fechada à concorrência estrangeira não só explicam esse desempenho ruim como anulam as perspectivas de melhora a curto e médio prazos.”

    Quanto a metodologia de cálculo, os pesquisadores do IBRE/FGV dividiram o Produto Interno Bruto (PIB) pela média de horas trabalhadas por ano pela população empregada de cada país, utilizando os dados do instituto americano Penn World Table, especialista no tema.

    Fonte:https://oglobo.globo.com/economia/brasil-aparece-na-lanterna-em-ranking-de-produtividade-22398977

  8. Quando observamos o valor dos betas, podemos pensar que não existe tanta diferença para o caso brasileiro, é apenas 0.35 certo? Mas quando interpretamos o significado, fica bem claro a existência de uma enorme diferença para o caso brasileiro, essa pequena diferença em valor representa uma sensibilidade à variação 8 vezes maior para o caso dos EUA.

  9. É interessante também mostrar como as caracteríticas institucionais de cada país relacionam, a recuperação econômica seguida por uma queda no desemprego, por exemplo. No fim do ano de 2012 o Fundo Monetário Internacional (FMI) dedicou boa parte de seu seminário anual de pesquisa econômica, a reexaminar a Lei de Okun.
    Em comparação com os EUA, o Brasil apresentou um quadro um tanto diferente, no caso ambas as economias estavam retomando a fase de crescimento econômico pós crise mundial de 2008, e o que se observou foi que no Brasil o desemprego não aumentou como se era esperado para o período anterior e parte disso é justificado pela questão de que a oferta de trabalho está diminuindo, então seria necessário um crescimento mais baixo para manter uma mesma taxa de desemprego, outra justificativa é a de que no Brasil, os encargos trabalhistas sobre a folha salarial são bem mais “impactantes” na decisão de demitir um funcionário ou não, ou seja, muitas firmas preferem operar com uma certa margem de prejuízo por um certo período do que terem de desembolsar uma quantia significativa em pouco tempo.

Deixe uma resposta para Artur Minussi Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s