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A Ruga Seu Heitor

Meu pai, Seu Heitor. Nasceu lá nos idos de 1933, completaria 87 anos em 12/12/2020. Homem do interior de Minas Gerais, casou-se cedo como era costume, com seus dezoito anos, com Dona Luzia, que contava seus dezesseis. Na roça, plantando café, arroz, e outras fontes de sustento e de escambo ou, com sorte, venda, começou a formar família. Silva, como tantas outras. Mas essa é especial, é a dele e dela, a nossa. Só nós sabemos – mas isso fica para um outro momento. Lá ainda na lida na roça, teve seus quatro primeiros filhos. Família crescendo, hora de buscar novas oportunidades de sustento. Partiu na frente para São Paulo, município de Guarulhos, um cunhado fora antes e havia possibilidade de emprego rápido. O ano, 1962. Esposa e filhos foram em seguida. Vida dura, moradia precária, muitas bocas. E mais três vieram nos anos seguintes, das quais esta que vos fala é a caçula.

Era assim que ele curtia uma piscina, como se estivesse indo pra missa: calça e sapatos sociais, camisa e relógio.
Crédito das fotos: Fernando Martins

Sério e de pouca fala, Seu Heitor. Daí o título dessa homenagem, simples e cheia de amor, que faço a ele agora. A ruga Seu Heitor vem da feição sisuda, de homem que não está para conversa fiada, expressão também da retidão de caráter que nos ensinou como valor fundamental. Marca a separação das sobrancelhas, acima do olho esquerdo. Além dos valores morais, também herdei dele a ruga Seu Heitor, segundo a família. Trabalho, trabalho, trabalho e alguma diversão em festas de finais de ano, alguma taça de vinho num momento ou outro. Cerveja? Nunca vi beber. Cigarro? Nem passava perto e não dos deixava também cair nesse e em outros tantos vícios de jovens adolescentes. Agradeço. A grande dor, do meu ponto de vista, para ele e Luzia, foi a perda do primogênito com 31 anos, num acidente trágico que marca a família toda até hoje. Perder um filho é antinatural.

Mas a foto acima mostra mais que a ruga Seu Heitor, mostra um homem charmoso, que também sabia sorrir, que adorava chapéus e boinas, que gostava de sanfona e tratava com muito carinho a que, há muitos anos, tinha como objeto de devoção. Não tocava. “Muito difícil, não dá“, dizia ele, que arriscou algumas aulinhas depois da aposentadoria como Porteiro/Segurança de uma metalúrgica. Seu ensino primário incompleto não lhe permitiu desvendar muitos dos mistérios desse mundo, além da sanfona. Teve uma vida afortunada, criou, com Luzia, todos os filhos – todos muito bem encaminhados, e a caçula aqui chegou à Universidade. Chegaram os 7 netos, hoje todos com grau universitário e seguindo seus caminhos, e 3 bisnetos, completando a alegria do Biso! O passar dos anos trouxe mais sabedoria, mais bom humor e amoleceu o coração do homem sisudo, que passa a fazer piadas nos almoços de domingo, abrindo gargalhadas e enrubescendo, ou a chorar copiosamente assistindo a propaganda de margarina na tv – sagitariano-raiz. Casa sempre cheia, filhas, netos, bisnetos, agregados, todo mundo falando junto, contando histórias.

E nessa boa fortuna, Seu Heitor foi chegando à velhice, a impermanência do corpo se fazendo presente, natural em nossa existência – a única certeza. A energia diminuindo, a luz interior se tornando menos intensa, doenças da velhice, sempre tratadas e acompanhadas com todo cuidado possível. A pandemia que prendeu “os dois passarinhos na gaiola”, como diz minha mãe. O tempo algoz. Ele dizia que queria morrer dormindo. Que boa fortuna, meu pai. Foi assim naquela manhã de quinta-feira, 26/11/2020, tomou o remédio da tireoide, foi ao banheiro, voltou para cama, acendeu a luz do quarto a pedido de minha mãe, que também levantara para seu hábito matinal. De volta ao quarto, Dona Luzia puxou assunto, hábito matinal, ele não respondeu, ela insistiu, sem resposta. Foi-se, como se tivesse dormido.

Dona Luzia, luz e alegria constante na vida de todos nós, nossa fonte de sabedoria (herdei dela o gosto pelo conhecimento!), sofre a perda do companheiro de 67 anos de casamento. Nosso pai, avô e bisavô vive para sempre em nosso amor e memórias, mas ainda dói. O tempo amigo fará sua mágica… um dia.