Política

Qualidade do ensino público

Esses dias, um dos meus sobrinhos que estuda jornalismo na Unesp, o Fernando Martins (do Blog do FM) trouxe a questão: a proposta de reformulação do ensino médio condensando as 13 disciplinas atuais em 4 áreas de conhecimentos, com foco na multidisciplinaridade; e perguntou a opinião dos professores da família. Eu, Orlando, professor de artes, Tati, professsora de português e inglês e Geraldo Luis, professor de educação física – todos funcionários públicos. Sempre que conversamos sobre educação, após os almoços de domingo, eu me aproximo mais desse universo do qual participei como estudante e hoje tenho esses três sobrinhos lidando diariamente com essa dura realidade… Quando eu reclamo das minhas condições atuais, sempre ouço o coro “ah, tia… e você está no topo da pirâmide!!” – verdade, me calo e ouço.

Eu não sei se no meu tempo o ensino público era melhor mesmo ou não – parece coisa de velhota saudosista “ah, no meu tempo…”. Talvez fosse, mas também era mais elitista: muitas crianças e jovens estavam fora da escola. As que estavam na escola, precisam mostrar bom desempenho para serem aprovadas e avançarem no processo de aprendizagem. As que avançavam e chegavam a tentar uma vaga na concorridíssima universidade pública, como eu, descobriam que uma parte considerável do conteúdo cobrado no vestibular não tinha feito parte do sua formação – aí era hora de correr atrás e aprender melhor tudo que já tinham ouvido falar e desvendar mais um tanto de conteúdos totalmente novos, contando com o material de cursinhos e com o humor duvidoso dos professores dos mesmos… Alguns poucos superavam essas e outras dificuldades e alcançavam a meta: uma vaga na universidade pública, tantos outros tombavam pelo caminho e caiam no mercado de trabalho sem uma profissão definida.

Os últimos vinte anos foram palco do processo de universalização dos ensinos fundamental e médio, praticamente todas as crianças e jovens em idade escolar estão na escola. Os mecanismos de aprovação automática deram conta da evasão que assolava o sistema. Parece-me aceitável que a universalização seja acompanhada de alguma perda inicial de qualidade, mas não é nada aceitável que leve ao fundo do poço em que nos encontramos hoje – faltaram planejamento e investimento que sustentassem e melhorassem os níveis de excelência do processo.

Passo a palavra para os professores que vivem essa realidade e reproduzo aqui nosso papo no facebook:

Roseli Silva: Eu gosto da idéia de multidisciplinaridade, mas… tenho receio de que seja mais um caminho sem volta para a piora da qualidade do ensino, seja por falta de metodologia efetiva, por falta de preparação adequada do corpo docente, por falta de estrutura (espaço físico, laboratórios adequados…)… medo!!!

Tati Eustáquio: Confesso que não sei mais o que pensar, de hora em hora o governo vem com grandes ideias para tentar melhorar o caos do ensino público, alunos e professores não passam de ratos de laboratório nesta história toda.A ideia é bonita no papel, mas como será na prática?Concordo com a Rô, há detalhes que precisam ser discutidos e planejados o que acaba não acontecendo…lançam a ideia e nós que temos que nos virar para que dê certo, infelizmente.

Fernando Martins: Não adianta nada o plano de ensino se os professores são mal pagos, alunos não tem apoio e a estrutura da escola não existe…

Orlando Perdichizzi: Hoje fala-se muito sobre “estimular o aluno”. Todo e qualquer mal resultado obtido em avaliações externas como o Ideb e o Saresp, a culpa recai sobre quem? Ao professores, logicamente. Além dos motivos citados pelos nobres colegas acima, como falta de estrutura por exemplo (salas com 50 alunos presentes, em contraste com 20 nas escolas particulares); há uma questão que julgo de extrema importância: o papel dos pais na vida acadêmica de seus filhos. O Art.246 do Código Penal fala do crime por “abandono intelectual”; onde o responsável é punido por não prover instrução básica ao filho (mandá-lo para a escola). Penso que deveria ir além disso. Deveria haver punição ao pai que não acompanhasse e estimulasse, realmente, o seu filho. Só para exemplificar e já finalizar: o aluno passa 5 horas na escola, e o restante do dia consumido pelo ócio. E não falo do ócio criativo. Fica “largado” pelas ruas, fumando seu narguile; ou ouvindo seu instrutivo funk deitado em sua cama. Eu sinto muito, mas quando a mãe de um aluno de 11 anos me diz: “não sei o que fazer com meu filho, ele só quer rua”; a mudança ou não na grade curricular não faz muito sentido!!!

…e ZÉFINI, TÁ NA BOCA DO BRASÍ!!! (Beltoldo Brecha)

Orlando Perdichizzi: E digo mais… todas as últimas mudanças impostas pelo governo, têm como principal objetivo o corte de gastos. Posso citar a divisão da classe em categorias (F,O,L,V), com contratos precarizados. O contrato é finalizado antes de 1 ano para não serem pagos férias e 13º; na saúde: exclusão do professor do servidor público estadual e inclusão no INSS, entre outros… Todos os ingressantes (não concursados) que vieram pra rede após 2007 entram nessas categorias.

Vocês devem ter visto propagandas onde se fala sobre os professores auxiliares (2 professores por sala). Eu pergunto: porque não se abrem mais salas, diminuindo o número de alunos por sala? Porque é mais barato colocar um auxiliar, pagando menos, e dividindo uma sala de 50 cabeças.
Quanto ao ensino médio, há algum tempo há boatos sobre planos do governo: tercerizar os cursos técnicos e deixar os regulares como cursos não presenciais. Ou seja, menos aulas, menos professores, menos gastos. Não há nada concreto sobre isso, mas onde há fumaça há fogo…
Sem contar os salários. Somos os profissionais com curso superior completo menos remunarados: R$1500,00 por 40 horas semanais…”
Bem… nem precisa falar mais nada… Como diz o Orland, ZÉFINI!!!
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Cultura Econômica, Livros... Livros..., Mercados Financeiros

Com a palavra, um profissional!

 

Para finalizar a Atividade 1, nada melhor que um profissional com a carreira em ascensão para nos contar como a leitura de “How we decide” o ajuda em seu dia-a-dia! Convidei Caio Banti, um gestor de risco do mercado financeiro, economista, hoje trabalhando em um grande banco em Nova York. Caio também faz Mestrado Profissionalizante na NYU em finanças e, como ele mesmo pediu para contar, foi meu aluno em umas quatro disciplinas (aprovado em todas… rs) e meu orientando de monografia (nota 10!). Além disso, foi ele quem me presenteou com o livro no último Natal, em Nova York!

  

“18 de Setembro de 2008: o telefone toca e pelo menos três traders tentam me explicar porque precisam de um novo limite de crédito para operar com um cliente. O dólar havia saltado de R$ 1.81 para R$ 1.94 em três dias na semana negra que começou com a quebra do Lehman Brothers nos EUA. Isso não parecia nada normal mas os traders pressionavam por um aprovação rápida para evitar que o cliente não perdesse “uma oportunidade de mercado” que se fecharia caso o dólar se movesse. Minha suspeita venceu a pressão dos traders e eu decidi escalar a decisão para meus superiores. À medida que fazíamos mais perguntas, a situação parecia mais anormal. Alguns dias depois, a mesma empresa anunciou perdas de USD 2 bln e sua incapacidade de pagar os credores.

Como gestor de risco meu trabalho é bastante dinâmico. Sou responsável pela aprovação do risco de crédito que o banco incorre em todas as operações de empréstimos e derivativos para um determinado portfólio de clientes. Em algumas ocasiões, há tempo para decidir. Entretanto, na maioria das vezes, especialmente quando se trata de derivativos como no exemplo, a decisão precisa ser quase instantânea ou o cliente acaba fechando a operação com um concorrente.

Normalmente uma decisão rápida é um diferencial competitivo na indústria bancária, mas mais importante do que ser rápido é saber quando esperar. Mas como saber diferenciar as situações? O caso usado como exemplo por muito tempo me fez pensar que a decisão de escalar o pedido por novos limites só tinha um motivo: sorte. Desde então, comecei a pesquisar como tomamos decisões e me surpreendi com a vasta literatura que existe sobre o tema.

 “How we decide” foi um dos primeiros livros que li sobre o assunto. Um livro bastante informal, mas extremamente gostoso de ler e revelador. Uma leitura bastante adequada à iniciação no assunto já que a jornada é longa. Entender como partes importantes do cérebro funcionam tem sido fundamental para aproveitar suas fortalezas e mitigar suas fraquezas no meu dia-a-dia. Foi assim que entendi que na verdade minha decisão de escalar o pedido dos traders não foi puramente sorte. Com base em várias operações anteriores, meu “cérebro emocional” instantaneamente me passou a ideia de que aquele pedido não era convencional.

 Uma das principais contribuições de “How we decide” foi ajudar a diferenciar as situações. Hoje entendo melhor que tipo de abordagem preciso aplicar a cada situação: quando tomar uma decisão instintiva, quando parar por alguns minutos para pensar nas variáveis envolvidas (quando essas são poucas) e quando preciso de mais tempo ainda para poder considerar todas as variáveis (quando essas são muitas). Essa última, por sinal, é uma das mais intrigantes. Por várias vezes dormi com problemas e acordei com soluções. Nada melhor que solucionar problemas dormindo. Alias, pena que não podemos entregar os exames sempre no dia seguinte. Entretanto, nem tudo é feito para dar certo. O cérebro também esconde problemas como o efeito âncora e a aversão a perda certa, apenas para citar dois exemplos. Entender esses defeitos, saber identificar situações em que esses se aplicam e desarmar nosso “instinto” são tão fundamentais quanto usar as fortalezas que o cérebro nos oferece.

 Em resumo, uma grande leitura, mas não o fim de uma jornada. Pesquisando mais vocês verão que, como nós, todos os agentes do Mercado possuem os mesmos desafios para lidarem com as decisões. Em finanças esses desafios podem gerar distorções às teorias tradicionais que estão dando origem a novas teorias com um forte componente comportamental. Mas esse já é assunto para outra oportunidade (e para um outro livro).”

 

 Obrigada, Caio!

 

Cultura Econômica, Livros... Livros...

Começando a atividade de Finanças I

Hoje inicio postagens dos resumos do livro “How we decide”, de Jonah Lehrer, feitos pelos estudantes de Finanças I. Divididos em grupos de até cinco pessoas, devem ler e sintetizar capítulos do livro e, ao final, faremos uma apresentação geral de todos os grupos em sala de aula para consolidar as ideias principais e o aprendizado que a leitura propiciou.  

A ideia é que esta atividade conte com comentários de todos, e que tenhamos aqui, via Blog, uma ambiente informal e descontraído (e, claro, respeitoso) para debates e expressões de opiniões, para, assim, entendermos melhor o papel dos modelos econômicos que embasam a moderna teoria de finanças e, principalmente, suas limitações na compreensão dos fatores que influenciam a tomada de decisão.

Cada post com essa finalidade terá o título “Como decidimos? Part x” e será transcrito aqui tal qual enviado pelo grupo, com aspas e itálico para marcar a citação literal, ok? Os resumos, a julgar pelo conteúdo enviado pelo primeiro grupo, serão maiores que o tamanho médio dos posts que eu produzo, mas ainda assim resolvi postá-los integralmente, e não em trechos menores, como havia pensado originalmente, para evitar confusões e perda de fluidez na leitura.

Vamos lá! Boa atividade a todos!!

Cultura Econômica, Ensinando Economia

Primeiras aulas de macro…

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Você se lembra das suas? Eu me lembro das minhas… como estudante, eu digo! Começar a estudar macroeconomia é sempre estimulante, a gente acha que vai entender tudo de tudo aquilo que passa na TV sobre inflação, desemprego, taxas de juros e câmbio, exportações, fluxo de capitais, crises financeiras, etc, etc, etc… E, de certa forma, é verdade! 

Por que de certa forma? Porque o início desse processo de aprendizado todo está aí, de fato, nas primeiras aulas de macro, que se torna realmente interessante, no sentido de nos propiciar compreensão das economias contemporâneas, alguns semestres mais tarde, quando o funcionamento de economias abertas é estudado e as relações internacionais em termos de bens e de capitais são explicitamente trazidas para o instrumental de análise, além de aspectos mais modernos do desenvolvimento teórico como o regime de metas de inflação e o papel da credibilidade e das instituições na macroeconomia. 

Assim, tenhamos paciência… e saibamos que dificilmente se alcança o conhecimento mais complexo sem dar os passos básicos. Uma base bem consolidada é a fonte para uma caminhada mais tranquila rumo aos avanços futuros! Além disso,  como também alertei os alunos, é também muito importante reconhecer os limites daquilo que se estuda, saber para o que não serve determinada teoria ou modelo. Porém, ainda assim, esse raciocínio básico de macro já ajuda a dar os primeiros passos no mundo real, como Paul Krugman nos mostra neste post ou neste (vale a pena ler…)

Tenho pensado em como realizar com os estudantes de Macro I atividades interativas, com o uso mais efetivo do blog como instrumento didático, mas ainda não consegui pensar em nada que me pareça factível (tal como a atividade que realizaremos em Finanças). Um dos alunos me sugeriu que tal atividade utilizasse notícias sobre macroeconomia nacional ou internacional, achei ótima a ideia, mas acredito que, por ser um curso bastante básico, poderíamos ter mais confusões do que aprendizado efetivo. E, como também já alertei meu alunos desse semestre, é muito fácil um estudante novato no ramo achar que macroeconomia é “embromation”, ou apenas seu juízo de valor sobre os fatos, e inventar o que eu costumo chamar de “macroeconomia da minha cabeça”… Acontece muito em provas: o estudante preenche páginas de texto usando conectivos conclusivos (portanto, assim, logo… ) e traça um emaranhando sem nexo de raciocínios falaciosos (para ser simpática… rs).

Se você, estudante ou não dessa disciplina, tem uma sugestão de atividade, deixe seu comentário! Agradeço!

 


Experiências no pós-doc

Voltando à vida normal…

 

Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à rotina da vida normal… Se bem que não há muita rotina na vida de um acadêmico, e esse é um dos fatores que me fez escolher essa carreira: não sirvo para trabalho 9-às-6. Meu trabalho está sempre comigo, às vezes viro noites terminando o estudo de um artigo, às vezes passo dias estimando modelos econométricos, outras ainda escrevendo, escrevendo, escrevendo resultados e reflexões sobre minha própria pesquisa… Estas atividades solitárias, em período letivo, são recheadas pelo contato com a moçada, os estudantes – a cada semestre tornamos a mesma disciplina que eu já lecionei em algo dinâmico e diferente. Minha vida pessoal também não é caracterizada pela rotina, não conservei nem casa nem carro ao longo desse ano e nada material me espera em meu retorno… Só o carinho, o amor e a saudade imensa da família e amigos me esperam, ou seja, o que de fato importa na vida! 

Então, reformulo: Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à vida normal!

Tudo experimentado, vivido, aprendido ao longo desse ano, difícil em muitos aspectos, mas também prazeroso e estimulante em tantos outros, deixa marcas profundas em quem eu sou hoje e em quem serei daqui para frente. Nova York é uma cidade fantástica e me adaptei muito bem aqui, sou uma mulher de grandes metrópoles – fato. A Universidade de Columbia, um ambiente acadêmico de excelência, um tanto hostil, mas ainda menos que os nossos pretensos redutos do saber… as oportunidades de aprendizado que tive aqui são inestimáveis. Não volta a mesma Roseli, muito menos a mesma Professora Roseli… esta ainda mais cheia de ideias e, como sempre, muito preocupada com o ensino e as práticas didáticas, num momento em que os fundamentos da ciência econômica estão sob questionamento.

Ainda estou em dúvida sobre qual o momento mais difícil: aquele que antecedeu minha vinda, ou este, que antecede a volta. Estando nele, não sou capaz de julgar… mas é fato que o atual traz um elemento totalmente desconhecido para mim até então: o que essa nova Roseli vai achar daquela vida normal? Será que elas vão se entender bem? Será que a readaptação vai ser suportável? Será que a minha vida normal de antes também será outra a partir de agora?

Não sei as respostas. Já aprendi também que o medo do desconhecido, até certo ponto, é saudável… e que crescer, dói. Ainda assim sempre escolho os caminhos do crescimento. De resto… carpe diem!

 

 

Experiências no pós-doc, Mercados Financeiros, Política Fiscal

European Safe Bonds: uma solução viável?

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A crise da dívida na zona do Euro tem sido um dos principais assuntos na mídia internacional nos últimos meses. Não vou ficar chovendo no molhado, aqui. Mas, assistindo a um painel sobre o assunto promovido pelo Program for Economic Research de Columbia Economics, há cerca de duas semanas, que teve como participantes Richard Clarida (columbia Economics), Ricardo Reis (Columbia Economics) e Charles Calomiris (Columbia Business School), algumas perspectivas interessantes sobre o assunto foram debatidas, dentre elas a proposta de criação dos European Safe Bonds (ESBies), defendida por Ricardo Reis.

Clarida foi o primeiro a falar e se posicionou muito contrariamente às “exigências absurdas” da Alemanha para que Grécia, Espanha, Itália e Irlanda absorvam, por meio de seus governos, as dívidas de seus bancos a fim de evitar uma crise bancária sem precedentes, que se espalharia como fogo pelo sistema bancário europeu, uma vez que alemães e franceses são os principais detentores de tais dívidas.

Calomiris (ele é muito bem-humorado e distribuiu um instigante texto de 9 páginas que pode ser encontrado aqui) argumenta que a saída para a Grécia é mesmo o calote e a reestruturação da sua dívida, para o quê necessita, sim, deixar a zona do euro. Em sua avaliação, os países em crise apresentam três distintos problemas que requerem diferentes respostas de política econômica: 1) sobre-endividamento; 2) elevados déficits acompanhados de sobre-endividamento; e 3) perda de competitividade; – a Grécia conjuga os três, por isso requer tratamento emergencial. E Portugal vai no mesmo caminho… Já Irlanda e Espanha parecem não estar em rota de insolvência fiscal, principalmente se não absorverem as dívidas externas de seus bancos locais. E para ele, a Itália poderia resolver rapidamente o problema de sustentabilidade da dívida (sobre esse assunto, veja esse post) se cortasse gastos fiscais, mas isso parece pouco provável pois está politicamente quebrada. O final de seu texto não é muito animador: os governos preferem postergar medidas impopulares e o resultado provável será uma sequência caótica de medidas emergenciais e ad hoc, pouco coordenadas, tomadas em resposta às corridas aos bancos na Grécia ou em outro lugar, conforme depositantes desconfiem da conversibilidade de seus depósitos.

Ricardo Reis apresenta uma saída interessante e baseada nos mercados financeiros no lugar dos governos, propondo a criação de um ativo seguro para a e zona do euro, os ESBies. Essa proposta se consolidou a partir dos estudos e discussões de um grupo de economistas europeus (macroeconomistas e economistas financeiros)  que se reuniu no grupo denominado Euro-nomics e que tem como objetivos “systematically identify the weaknesses of the Eurozone design that have caused this crisis and propose remedies to end it”, nas palavras do próprio. O argumento principal para a proposta é que o mercado de dívidas soberanas da eurozona é fragmentado, e vem sendo tratado na última década como se todas as dívidas tivessem o mesmo grau de risco, o que, de certa forma, propiciou o fácil e crescente endividamento dos países que hoje se mostram insustentáveis. Além disso, tal fragmentação não propicia que os títulos europeus façam face aos títulos do tesouro americano, que, assim, ganham espaço como referência global de ativo livre de risco. A operacionalização da proposta exigiria a criação de uma nova instituição européia, a European Debt Agency(EDA), que desmembraria o portfólio das dívidas soberanas dos países membros em duas partes, os ESBies propriamente, que funcionaria como ativo livre de risco, e um “título junior” (junior claim??) que absorveria as possíveis perdas do conjunto de títulos, podendo servir como meio de investimento ou especulação de curto prazo.

A proposta é ousada e requer todo um esforço de institucionalização complexo, mas não impossível, em minha opinião. Porém, quanto mais a eurozona se afundar no prognóstico de Calomiris, mais difícil e custosa será a implementação de tal proposta. 

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Economia Matemática, Experiências no pós-doc, Política Monetária

“Não entendi o enredo desse SAMBA, amor…”

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Embora possa parecer pelo título deste post, esta não é mais uma tentativa de escrever sobre deus-e-sua-era como em post anterior, ainda que ela sempre esteja aberta e anunciada no próprio título do blog. Reconhecidamente, não tenho o talento e as “horas-bunda” (leia-se experiência vivenciada) de alguns colegas de profissão, como Eliana Cardoso, para fugir muito dos temas de economia, ainda. Voltemos a eles.

A menção à frase do samba composto por Jorge Aragão e Dona Ivone Lara destaca a palavra SAMBA como uma sigla. Como tem sido divulgado recentemente pela mídia, essa sigla nomeia o mais novo modelo de avaliação de políticas econômicas desenvolvido pelo Banco Central do Brasil (BCB), o Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach (SAMBA), nos moldes dos que têm sido adotados por bancos centrais no mundo todo ao longo da última década.

Para os que acompanham o Random Walk, isso não era novidade, pois o tema já foi tratado em,  Macroeconomia Moderna: convergência metodológica. A novidade é a divulgação em abril último, em forma de working paper, do SAMBA (veja aqui). A versão anterior, datada de setembro de 2008 circulou em meios restritos como trabalho para discussão em seminários e workshops de bancos centrais e apresentava ainda muitos problemas. A nova versão, em um calhamaço de 138 páginas (como divulgou recentemente o Estadão) está bem mais consistente em termos de representação da estrutura da economia brasileira. Eu tenho me debruçado sobre ela deste então… 

Os modelos da classe DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium), à qual pertence o SAMBA, apresentam duas características que podem justificar sua vantagem em relação aos macroeconômicos tradicionais, mais agregados: a primeira delas é que, em contraste com esses, é possível, dada uma correta especificação dos parâmetros da economia, utilizar os modelos DSGE para fazer previsões válidas e avaliar os impactos de mudanças de políticas econômicas, considerando a reação dos agentes a essas mudanças (livres da crítica de Lucas); e a segunda característica é o aumento na precisão das previsões que esses modelos propiciam.  

Eu tenho três pontos centrais de trabalho com tais modelos: 1. sua sensibilidade à escolha de parâmetros, e estou preparando minhas próprias estimativas dos parâmetros principais da economia brasileira para efeitos de comparação; 2. a capacidade do modelo em reproduzir as respostas empíricas, verificadas por meio da análise econométrica dos dados, grande calcanhar de Aquiles dos modelos estocásticos de equilíbrio geral, que vem sendo recentemente solucionada com a introdução de fricções financeiras nos modelos, e; 3. a sensibilidade dos resultados gerais à suposição de diferentes regras fiscais.

Claro… trabalho para mais de um ano! Por enquanto, estou “catando” os bugs (infinitos…) da primeira versão do meu modelo em Matlab, em breve espero ter resultados interessantes para compartilhar.

De toda forma, vale ressaltar que nenhum banco central do mundo toma decisão baseado apenas em resultados dos seus modelos DSGE. Afirmar isso, seja para o BCB ou qualquer outro, é completa falta de informação de como se gerencia política monetária ou má fé… Só mesmo para quem “não entendeu o enredo desse SAMBA, amor…”

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Experiências no pós-doc

Japão – Evento com Especialistas de Columbia

 

Tenho acompanhado atentamente as notícias e as análises de especialistas sobre o terremoto que atingiu a costa nordeste do Japão, no dia 11 de março. Além dos meus mais profundos sentimentos pelas perdas humanas, não tenho nenhuma contribuição essencial para o tema; não sou especialista em economia japonesa, apenas admiradora da cultura e da história desse povo heróico e resiliente.

Exatamente por isso procurei aprender mais um pouco ouvindo especialistas da Universidade de Columbia, num evento realizado ontem, dia 22 de Março, intitulado “The Economic, Health, and Political Consequences of Japan’s Earthquake”, e vou reportar aqui os pontos que considerei mais interessantes da fala de cada um dos especialistas, claro que sob meu próprio filtro.

O primeiro a falar foi Professor Brenner, especialista em efeitos da radiação sobre a saúde, que começou explicando como funciona uma usina nuclear e como pode haver vazamento de material tóxico em casos como o do Japão. Primeiro, os reatores desligam automaticamente na ocorrência de um terremoto, e como houve falta de energia, a refrigeração necessária mesmo com os reatores desligados não ocorreu, levando à necessidade de liberação de vapores radioativos como medidas emergenciais, evitando uma catástrofe nuclear. A contaminação tem sido mínima, e segundo esse especialista, não deve causar dano algum à população da região no curto prazo. O problema está no acúmulo do material radioativo (I-131 e Cs-137, principalmente) no ambiente no médio e longo prazo, o que requer um programa de acompanhamento da população, da produção agropecuária e da cadeia alimentar como um todo. Isso porque o I-131 tem meia-vida física de 8 dias e o Cs-137, de 30 anos. Ou seja, a cada 30 anos metade da quantidade do elemento se desintegra, no caso do Cs-137. Já a meia-vida biológica (considerando os efeitos desses elementos sobre os seres vivos) é se 3 meses para o I-131 e de 70 anos para o Cs-137.  Professor Brenner também apresentou uma interessante tabela em que  mostrou os principais caminhos de exposição das pessoas a tais elementos radioativos: 55% bebendo leite e 15% por meio do consumo de outros tipos de alimentos, produzidos na região atingida; 15% por inalação e 15% por exposição direta. Assim, as medidas imediatas são evacuação e proibição do consumo de produtos, leite principalmente, da região. Quantos aos efeitos sobre a saúde de uma baixa dose de exposição (a qual ainda não foi alcançada no caso japonês), citou um pequeno aumento no risco de desenvolver câncer no longo prazo: esse risco ao longo da vida “normal” é de 44%, com a exposição a doses baixas, aumentaria para 44,3%. Ele também chamou a atenção para a possibilidade de ocorrência de psico-sintoma, numa escala mais geral, como foi verificado no episódio de contaminação por Cs-137 em Goiânia em 1987, em que diversas pessoas que não estavam de fato contaminadas foram atendidas em hospitais com queixas de sintomas de contaminação, o que também requer atenção das autoridades de saúde japonesas.

Quanto as consequencias econômicas, Professor Weinstein começou sua exposição alertando para o fato de que a atividade econômica japonesa está intimamente ligada a geografia física, mostrando mapas som fotos de satélite que permitiam identificar as áreas mais populosas e de maior importância econômica nas regiões mais planas fisicamente. A principal área atingida pelos terremoto e tsunami não são de relevância econômica, também por isso acredita que as consequências econômicas não serão severas. Agregou a esse argumento, outro que explica porque não deve haver grande efeito de propagação de uma crise: a utilização da capacidade instalada (máquinas, equipamentos, infraestrutura) estava relativamente baixa antes da ocorrência do terremoto, era de 82%. Ou seja, o Japão não perdeu capacidade instalada significantemente, uma vez que as principais perdas materiais são de bens de consumo duráveis (casas, carros, edifícios comerciais, etc), e terá, agora uma elevação de demanda desses bens que poderão ser produzidos ao longo do tempo sem grandes pressões do lado da oferta. Ele acredita que em 1 ou 2 anos a economia japonesa está restabelecida e com a possibilidade de se mostrar mais dinâmica que anteriormente, devido ao choque de demanda atual. Mesmo em relação ao insumo energético, que poderia ser uma restrição de oferta, Professor Weinstein não vê grandes problemas, lembrando que o sistema energético japonês tem uma diferenciação de voltagem entre o leste e o oeste, que impediria que a energia gerada no oeste fosse transferida para o oeste, mas mesmo assim, os principais centros econômicos não sofreriam escassez de energia no médio prazo, dentro das circunstâncias atuais. O ponto que talvez seja o mais sensível é a sustentabilidade fiscal do governo japonês, que já acumula uma dívida líquida de 114% do seu PIB, mas a estimativa de impacto dos gastos japoneses com a recuperação econômica é de 2 pontos percentuais, o que, segundo ele, não causaria grandes efeitos sobre a sustentabilidade fiscal ao longo do tempo.

Professor Curtis tratou das questões políticas, chamando a atenção para o fato de que o governo japonês têm respondido a esse episódio de forma mais aberta, honesta e afável, inclusive aceitando ajuda internacional, como em nenhum outro momento. Ressaltou a forma como especialistas, comentaristas, cientistas e jornalistas têm falado ao público, de maneira serena, exatamente o que sabem no momento, na cobertura da NHK que ele tem acompanhado. A pergunta para a qual ele não tem resposta é: “Os políticos irão elevar o nível do debate político e aproveitar a energia para reconstruir e crescer que o povo japonês possui?”. Segundo Professor Curtis, os japoneses não necessitam de líderes carismáticos para aglutinar a sociedade em torno de um objetivo, eles não estão em pânico, nem com raiva da natureza ou do governo, eles só precisam de gerenciamento administrativo.

 

Espero ter contribuído de alguma forma, compartilhando um pouco do que aprendi com vocês!

Speakers:

David J. Brenner

Higgins Professor of Radiation Biophysics, College of Physicians & Surgeons of Columbia University; Director of the Center for Radiological Research (CRR); Director of the Columbia University Radiological Research Accelerator Facility (RARAF)

Prof. Brenner is an expert in the field of identifying the effects of low doses of radiation relating to medical, occupational, and environmental exposures, and winner of the the 1992 National Council on Radiation Protection and Measurements Award for Radiation Protection in Medicine.

Gerald L. Curtis

Burgess Professor of Political Science; Director, Toyota Research Program, Weatherhead East Asian Institute, Columbia University

Prof. Curtis has published extensively on Japanese politics and serves as a columnist for numerous Japanese and US news publications. He was awarded the Order of the Rising Sun, Gold and Silver Star by the Emperor of Japan, one of the highest honors bestowed by the Japanese government.

 

David E. Weinstein

Carl S. Shoup Professor of the Japanese Economy; Associate Director for Research, Center on Japanese Economy and Business, Columbia Business School; Executive Director, Program for Economic Research, Columbia University

Prof. Weinstein has written extensively on the economic impact of catastrophic events in Japan as well as on trade, macro, and financial economics. Prof. Weinstein is the winner of numerous grants and awards and has served as an advisor to the Japanese Cabinet Office and to the Federal Reserve Bank.

 

Curtis J. Milhaupt (Moderator)

Fuyo Professor of Japanese Law; Parker Professor of Comparative Corporate Law; Vice Dean, Columbia Law School

Prof. Milhaupt is an expert on the Japanese legal system, and has published widely in the fields of corporate governance and law and economic development.


Econometria, Experiências no pós-doc, Mercados Financeiros, Política Monetária

Workshop de econometria – ou será grego?

Atividades acadêmicas a todo vapor por aqui!

É muito bom poder voltar a ser estudante, andar à pé ou de metro (tem chovido bastante por aqui… e como venta nesta ilha!) – é… isso não é la muito bom, vai! Mas faz parte do pacote. Aliás, foi exatamente por essas possibilidades que decidi, há quase 5 cincos, sair da atuação em universidades privadas para a pública: não há nada mais prazeroso para mim que voltar a estudar, aprender coisas novas, conhecer o dia-a-dia de outra cultura, interagir com gente do mundo do todo! Entrar numa sala de aula e simplesmente ouvir, pensar, anotar e, às vezes, fazer perguntas (nunca dormir, bocejar descaradamente, ou entrar e sair a toda hora… )! E o mais: ali, na sua frente, explanando um tópico da matéria, um sujeito cujos artigos você lê desde que “se entende por gente” na área!! Fantástico!

Tenho frequentado os workshops de macroeconomia e de econometria, em que participam convidados de diversas universidades mundo à fora, e os colloquiuns dessas mesmas áreas. Nesses últimos, tenho me sentido bastante confortável, porque são apresentações dos artigos que comporão as teses dos estudantes de phd do departamento, então, embora o nível seja elevado, eu tenho acompanhado bem as discussões. O mesmo posso dizer do Money & Macro Workshop, coordenado pelos profs. Ricardo Reis (meu supervisor no programa) e Michael Woodford, que acontece às terças pela tarde, embora aqui realmente se discuta a fronteira da área, ainda tem sido bastante palatável.

Porém… Econometrics Workshop, coordenado pela prof. Serena Ng, que regularmente conta com a presença dos profs. Bernard Salanié e Jushan Bai… nossa! tem sido quase grego para mim! A discussão aqui é em nível avançadíssimo e teórico, claro. Para alguém que se pretende boa usuária da econometria apenas, como eu, é muito difícil entender o propósito dos artigos e muito menos o desenvolvimento deles. Para dar uma idéia, veja o título do último: “Cube-Root-N and Faster Convergence, Laplace Estimators, and Uniform Inference”… hã?? pareceu grego a certa altura da apresentação…


Economia, Mercados Financeiros

Proteção contra risco de mercado: contratos futuros

 

Nos mercados de derivativos são negociados instrumentos financeiros que são derivados ou dependentes do valor de outro ativo, como o próprio nome já diz. Os mercados de derivativos são caracterizados pela negociação a futuro: comprar ou vender um derivativo significa comprar ou vender o ativo base (ou subjacente) no futuro, a um preço e tempo predeterminados. O ativo base pode ser uma commodity (como o açúcar) uma ação, um título público, um índice de ações, o câmbio, dentre outros. Os segmentos que compõem os mercados de derivativos são: Contratos Futuros, Contratos a Termo, Opções e Swaps.

Estes mercados têm se desenvolvido muito nas últimas décadas e, para além de seu potencial para causar ou amplificar crises financeiras, como a última Grande Contração de 2007-2008, não se pode ignorar seu importante papel no gerenciamento dos riscos das atividades econômicas.

Um dos riscos aos quais as atividades do setor sucroalcooleiro (não só, mas como aqui tem cana para todo lado, resolvi usar esse exemplo) estariam sujeitas é o risco de mercado. Este tipo de risco provém das flutuações entre o preço de venda à vista e o de entrega futura da mercadoria que, quando negativas, afetam a liquidez e mesmo a solvência da empresa a médio e longo prazos.

Travar o preço futuro de venda do produto pode, então, evitar a sujeição de toda uma rede de estratégias e decisões de produção, desde o plantio até a colheita, moagem e processamento do açúcar e do álcool, aos caprichos da oferta e demanda do mercado à vista. O mercado futuro, em que são negociados os contratos futuros, oferece essa possibilidade de proteção (ou hedge).

No Brasil, os contratos futuros de açúcar  (e o mais recente mercado futuro de etanol) são negociados e garantidos pela Bolsa de Mercadorias & Futuros, a BM&F, hoje BM&FBovespa. Internacionalmente, contratos futuros de açúcar são negociados nas Bolsas de Nova Iorque (New York Board of Trade – NYBOT) e em Londres (London International Financial Futures and Options Exchange – LIFFE)

Nestes contratos, uma parte concorda em fornecer o ativo-base (o açúcar, neste exemplo), em alguma época no futuro, em troca do acordo da outra parte em pagar o preço combinado (preço de exercício) na ocasião do fornecimento (vencimento). O primeiro indivíduo assume a posição vendida no futuro, e o último, a posição comprada. Este instrumento pode ser utilizado como hedge, uma vez que alterações de preço do ativo após a realização do acordo geram ganhos para uma parte e perdas para a outra (tecnicamente, as chamadas de margem).

Preço futuro, a vista e volume de negócios – um exemplo

Os contratos futuros da BM&FBovespa são para o açúcar cristal especial, cotados em dólar por saca de 50 quilos líquidos e possuem cinco vencimentos no sexto dia útil de cada mês: fevereiro, abril, julho, setembro e novembro.

Como exemplo, o gráfico acima reporta o contrato futuro vencido em 08/02/2007. O ciclo de negócios se intensifica no mês de vencimento do contrato imediatamente anterior (novembro), e os preços negociados antecipam as tendências e oscilações do mercado a vista, convergindo para o preço a vista tanto mais a data de negociação se aproxima daquela de vencimento do contrato.

Como se dá essa convergência entre preços futuro e à vista depende do grau de eficiência do mercado futuro relativamente ao mercado à vista. Trataremos disso no próximo post!