Economia, Ensinando Economia, Inflação, Nível de atividade, Política Monetária

Ensinar macro nos dias atuais

 

Grande desafio.

Se você é professor de macroeconomia ou economia monetária sei que me entende bem. Não vou entrar na discussão da macro de fronteira e sua metodologia dominante, suas possíveis falhas em prever a última crise (??), seus avanços recentes sobre os efeitos de fricções financeiras e regulação, etc (recomendo esse post).

Estou falando do básico mesmo, em ensinar macroeconomia de forma que, ao final de uma sequência de cursos de graduação na área, o estudante possa olhar para o mundo lá fora sem um sinal de interrogação MUITO grande e, principalmente, compreenda que aulas de macroeconomia não são palestras em que “professores” despejam sobre estudantes sua visão de mundo, sem lhes oferecer a chance de compreender a lógica econômica que está por trás de sua análise normativa. Inicialmente é divertido, professor ri, brinca com os gestores de política econômica, aluno ri, anota tudo que o professor fala, acha que está entendendo tudo… depois, na hora de estudar, se dá conta de que há há teorias, há modelos, e ele não consegue encaixar neles nem 1/3 do que ouviu e anotou em aula. Nada contra uma aula descontraída, pelo contrário, mas tudo contra achar que o aluno sozinho vá fazer conexões e aprender apenas a partir daí – alguns poucos são capazes disso; e é papel do professor facilitar as conexões! Então, meu caro estudante, se você tem passado por situações como essa, um alerta: o sistema está te enganando!!

Tendo a concordar com o exposto por Krugman neste post, sobre o fato de que tudo que precisamos saber esteja nos velhos livros, principalmente em se tratando de ensino em graduação. Então, voltando ao nosso ponto, minha perspectiva é a de que falta ao ensino de macro um pouco da organização e do rigor lógico que o ensino de micro apresenta naturalmente. O que não significa que necessitemos microfuntamentar o ensino da macro na graduação, não. As relações agregadas dão bem conta da compreensão necessária sobre o assunto para um economista que atue fora da academia, em geral.

Na verdade, a discussão sobre o ensino de economia é um tema quente nos países desenvolvidos: veja esse post.

Minha estratégia para minimizar os problemas que observo no ensino de macroeconomia, bem mais mundanos que os apontados no post sugerido acima, é simples e requer aquilo que se espera de um professor: estratégia didática, coerência e inovação.

Neste material preparado para finalizar o curso de Economia Monetária (aqui), por exemplo, apresento dois modelos bastante simples que substituem o equilíbrio no mercado monetário (curva LM) por uma regra de Taylor (modelo de Taylor) ou estratégia endógena de política monetária (modelo de Walsh) que são muito mais relevantes para entender o processo de realização de política monetária atual que os tradicionais demanda e oferta agregadas. E há livros de macro que incorporam esses desenvolvimentos das duas últimas décadas, como este Macroeconomics, que estou avaliando adotar em meu próximo curso de Macro Internacional, no semestre que vem.

Cultura Econômica, Ensinando Economia, Livros... Livros...

“Involve me and I learn” ;-)

 

Sempre repito para mim mesma essa frase perfeita de B. Franklin: “Tell and I forget, teach me and I remember, involve me and I learn”. Encontrei-a lendo o livro “The Heart of Teaching Economics: lessons from leading minds“, que traz uma coletânea de entrevistas com renomados pesquisadores, reconhecidos em suas áreas por seus pares (ou seja, lotados de “pontos qualis”) e que, pasmem, são excelentes professores!! Um outro ponto que salta aos olhos e contradiz boa parte dos colegas locais é o consenso sobre a NÃO independência entre ensino, também na graduação, e pesquisa, que sempre defendi.  De qualquer forma, considero leitura primordial para nós, acadêmicos da área.

O problema é que ensinar dá trabalho e requer dedicação e paciência e, nesse sentido, há também um trade-off de tempo e energia com a pesquisa, ninguém há de negar. Ainda assim, os benefícios superam os custos e os insights que ganhamos ao rever um material básico, há muito estudado por nós, e que precisa ser transmitido aos alunos de graduação de forma eficiente para o seu processo ensino-aprendizagem, permitem-nos uma compreensão mais profunda tanto do problema econômico em questão quanto da evolução científica da área de pesquisa, pois, com o passar do tempo e nosso amadurecimento intelectual, somos capazes de fazer muito mais conexões em nossa memória e conhecimento e, incrível, também melhoramos como pesquisadores (já nos mostra a neurociência)!! Além disso, há os (raros) feedbacks dos alunos em sala de aula, as perguntas, os questionamentos, que também podem trazer interessantes temas de pesquisa, basta que estejamos de ouvidos abertos e receptivos, e tratemos nossos alunos com respeito intelectual – são jovens adultos, com observação do mundo diferente da nossa.

Qualquer um de nós é capaz de realizar de forma eficiente ambas as atividades, ainda que o talento individual seja maior para ensino ou para a pesquisa, se se dedicar minimanente a elas – ou seja, horas-bunda (energia + tempo) precisam ser dedicadas às nossas atividades como profissionais, igualzinho esperamos e incentivamos que os nossos alunos, ou qualquer outro profissional, façam!! “Ah, eu sou excelente pesquisador, mas péssimo professor!”, é, para mim, desculpinha de quem se acha gênio e/ou quer fugir de suas responsabilidades profissionais – salvo raríssimas exceções. E ensinar envolvendo os alunos também é mostrar isso como exemplo e não como retórica: estabeleça e preze o contrato (conteúdo, bibliografia, normas de avaliação, atividades a serem desenvolvidas – o famoso programa da disciplina) proposto no início do semestre; prepare suas aulas (!!!), mesmo que sejam da sua área de pesquisa e vc conheça o conteúdo de trás para frente, e pense em como transmiti-lo aos alunos (técnicas didáticas…); reflita e atue no sentido de contribuir para que os estudantes estabeleçam as conexões entre seu conhecimento nas diversas áreas da sua formação acadêmica (teoria econômica, métodos quantitativos e história) e suas experiências concretas, isso é aprender!

 

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Política Monetária

Os meios de pagamento na economia brasileira

 

As alterações nos conceitos de meios de pagamentos promovidas pelo Banco Central do Brasil em 2001 consistem numa mudança quanto ao critério de ordenamento dos componentes agregados, diferente da abordagem clássica de agregação pelo nível de liquidez dos ativos e passando a defini-los conforme seus sistemas emissores, conforme estabelecido pelo Fundo Monetário Internacional. De acordo com essa nova sistemática, os meios de pagamento ampliados são indicadores que antecedem pressões de demanda sobre o setor real – indústrias, famílias etc – melhores que os meios de pagamento restritos (abordagem do grau da liquidez), dado que os avanços tecnológicos aplicados às transações financeiras permitem uma maior facilidade nas realocações de portfólio, propiciando que o agregado de maior liquidez, M1, esteja sempre em um nível suficiente para a realização das transações. Mesmo com modelos de política monetária com foco no controle da taxa de juros, como o modelo de metas de inflação (o qual o Brasil é adepto), os agregados monetários continuam desempenhando um papel importante para acompanhamento de tais políticas, sejam como indicadores de liquidez da economia como também na distribuição dos meios de pagamento nesta.

No novo critério adotado pelo Banco Central, os meios de pagamento restritos apresentam uma baixa correlação entre moeda legal e nominal – observada em sistemas financeiros desenvolvidos – tem aumentado a liquidez aos passivos em geral emitidos pelas instituições financeiras. No entanto, em períodos de estabilização monetária, como o que ocorreu com a introdução do Plano Real, os meios de pagamento restritos tiveram uma variação significante, como em 1996, em que fora observada uma variação em 12 meses entre 14% e 39%.

       Alteração nos conceitos de meios de pagamento

Agregados grafico
Agregados

 

Fontes:

Fundo monetário internacional

http://www.imf.org/external/pubs/ft/mfs/manual/pdf/mmfsch6.pdf, pag 65.

Banco Central do Brasil

http://www.bcb.gov.br/ftp/infecon/NM-MeiosPagAmplp.pdf

 

Post produzido por:

Rubens Bozano

Graduando em Economia – FEARP/USP

 

Política Fiscal

Carga tributária

 

Tema recorrente no debate econômico nacional, nosso sistema tributário ganhou recentemente um detalhado e atualizado estudo, financiado pelo Banco Interamericado de Desenvolvimento e realizado por  José R. Afonso, Julia M. Morais e Kleber P. Castro, intitulado “Avaliação da estrutura e desempenho do sistema tributário Brasileiro – Livro branco da tributação brasileira“. 

Para instigar a leitura desse importante estudo, reporto dele dois gráficos que falam por si:

Carga 2010 Carga-IDHBoa leitura a todos!

 

Cultura Econômica, Economia

XII Workshop de Economia PPGE/USP-RP

O Workshop de Economia do Programa de Pós-Graduação em Economia da FEA-RP/USP (PPGE/USP-RP) tem se consolidado como um importante evento da área, reunindo pesquisadores altamente qualificados para a discussão e troca de experiências sobre temas de interesse nacional e internacional, com aplicações de teorias e técnicas empíricas de fronteira na ciência econômica.

A atual edição, a 12ª, terá a participação de pesquisadores de importantes centros de pesquisa e de atuação prática nacionais, além do corpo docente e discente da casa, que se reunirão na FEA-RP/USP:

Participantes:

Angelo Marsiglia Fasolo (Bacen)

Cristiano Costa (FUCAPE)

João Manoel de Mello (PUC-RJ)

José Angelo Costa do Amor Divino (UCB)

Lízia de Figueiredo (UFMG)

Luciano Nakabashi (FEA-RP)

Luis Braido (EPGE)

Rafael Coutinho (FEA-SP)

Sergio Lazzarini (Insper)

Tatiana Farina (Insper)

 

Local: Auditório Ivo Torres, FEA-RP/USP

Avenida Bandeirantes, 3900 – Ribeirão Preto

Datas e horários:

18 de outubro de 2012, de 14h30 às 18h15,

19 de outubro de 2012, de 9h00 às 18h00, com 1,5 hora livre para almoço.

A realização de tal evento requer, além do empenho dos organizadores e apoio dos colegas, da chefia de Departamento e da Coordenação de Pós-Graduação em Economia, o apoio institucional da FEA-RP da USP, bem como o apoio financeiro dos parceiros Conselho Regional de Economia, Corecon-SP, e Fundação para Pesquisa e Desenvolvimento da Administração, Contabilidade e EconomiaFundace, aos quais agradecemos antecipadamente.

O evento será gratuito e não requer inscrição prévia. Convidamos colegas e alunos a participarem!

Organizadores: Profa. Dra. Roseli Silva e Prof. Dr. Bruno Aurichio Ledo

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Política

Qualidade do ensino público

Esses dias, um dos meus sobrinhos que estuda jornalismo na Unesp, o Fernando Martins (do Blog do FM) trouxe a questão: a proposta de reformulação do ensino médio condensando as 13 disciplinas atuais em 4 áreas de conhecimentos, com foco na multidisciplinaridade; e perguntou a opinião dos professores da família. Eu, Orlando, professor de artes, Tati, professsora de português e inglês e Geraldo Luis, professor de educação física – todos funcionários públicos. Sempre que conversamos sobre educação, após os almoços de domingo, eu me aproximo mais desse universo do qual participei como estudante e hoje tenho esses três sobrinhos lidando diariamente com essa dura realidade… Quando eu reclamo das minhas condições atuais, sempre ouço o coro “ah, tia… e você está no topo da pirâmide!!” – verdade, me calo e ouço.

Eu não sei se no meu tempo o ensino público era melhor mesmo ou não – parece coisa de velhota saudosista “ah, no meu tempo…”. Talvez fosse, mas também era mais elitista: muitas crianças e jovens estavam fora da escola. As que estavam na escola, precisam mostrar bom desempenho para serem aprovadas e avançarem no processo de aprendizagem. As que avançavam e chegavam a tentar uma vaga na concorridíssima universidade pública, como eu, descobriam que uma parte considerável do conteúdo cobrado no vestibular não tinha feito parte do sua formação – aí era hora de correr atrás e aprender melhor tudo que já tinham ouvido falar e desvendar mais um tanto de conteúdos totalmente novos, contando com o material de cursinhos e com o humor duvidoso dos professores dos mesmos… Alguns poucos superavam essas e outras dificuldades e alcançavam a meta: uma vaga na universidade pública, tantos outros tombavam pelo caminho e caiam no mercado de trabalho sem uma profissão definida.

Os últimos vinte anos foram palco do processo de universalização dos ensinos fundamental e médio, praticamente todas as crianças e jovens em idade escolar estão na escola. Os mecanismos de aprovação automática deram conta da evasão que assolava o sistema. Parece-me aceitável que a universalização seja acompanhada de alguma perda inicial de qualidade, mas não é nada aceitável que leve ao fundo do poço em que nos encontramos hoje – faltaram planejamento e investimento que sustentassem e melhorassem os níveis de excelência do processo.

Passo a palavra para os professores que vivem essa realidade e reproduzo aqui nosso papo no facebook:

Roseli Silva: Eu gosto da idéia de multidisciplinaridade, mas… tenho receio de que seja mais um caminho sem volta para a piora da qualidade do ensino, seja por falta de metodologia efetiva, por falta de preparação adequada do corpo docente, por falta de estrutura (espaço físico, laboratórios adequados…)… medo!!!

Tati Eustáquio: Confesso que não sei mais o que pensar, de hora em hora o governo vem com grandes ideias para tentar melhorar o caos do ensino público, alunos e professores não passam de ratos de laboratório nesta história toda.A ideia é bonita no papel, mas como será na prática?Concordo com a Rô, há detalhes que precisam ser discutidos e planejados o que acaba não acontecendo…lançam a ideia e nós que temos que nos virar para que dê certo, infelizmente.

Fernando Martins: Não adianta nada o plano de ensino se os professores são mal pagos, alunos não tem apoio e a estrutura da escola não existe…

Orlando Perdichizzi: Hoje fala-se muito sobre “estimular o aluno”. Todo e qualquer mal resultado obtido em avaliações externas como o Ideb e o Saresp, a culpa recai sobre quem? Ao professores, logicamente. Além dos motivos citados pelos nobres colegas acima, como falta de estrutura por exemplo (salas com 50 alunos presentes, em contraste com 20 nas escolas particulares); há uma questão que julgo de extrema importância: o papel dos pais na vida acadêmica de seus filhos. O Art.246 do Código Penal fala do crime por “abandono intelectual”; onde o responsável é punido por não prover instrução básica ao filho (mandá-lo para a escola). Penso que deveria ir além disso. Deveria haver punição ao pai que não acompanhasse e estimulasse, realmente, o seu filho. Só para exemplificar e já finalizar: o aluno passa 5 horas na escola, e o restante do dia consumido pelo ócio. E não falo do ócio criativo. Fica “largado” pelas ruas, fumando seu narguile; ou ouvindo seu instrutivo funk deitado em sua cama. Eu sinto muito, mas quando a mãe de um aluno de 11 anos me diz: “não sei o que fazer com meu filho, ele só quer rua”; a mudança ou não na grade curricular não faz muito sentido!!!

…e ZÉFINI, TÁ NA BOCA DO BRASÍ!!! (Beltoldo Brecha)

Orlando Perdichizzi: E digo mais… todas as últimas mudanças impostas pelo governo, têm como principal objetivo o corte de gastos. Posso citar a divisão da classe em categorias (F,O,L,V), com contratos precarizados. O contrato é finalizado antes de 1 ano para não serem pagos férias e 13º; na saúde: exclusão do professor do servidor público estadual e inclusão no INSS, entre outros… Todos os ingressantes (não concursados) que vieram pra rede após 2007 entram nessas categorias.

Vocês devem ter visto propagandas onde se fala sobre os professores auxiliares (2 professores por sala). Eu pergunto: porque não se abrem mais salas, diminuindo o número de alunos por sala? Porque é mais barato colocar um auxiliar, pagando menos, e dividindo uma sala de 50 cabeças.
Quanto ao ensino médio, há algum tempo há boatos sobre planos do governo: tercerizar os cursos técnicos e deixar os regulares como cursos não presenciais. Ou seja, menos aulas, menos professores, menos gastos. Não há nada concreto sobre isso, mas onde há fumaça há fogo…
Sem contar os salários. Somos os profissionais com curso superior completo menos remunarados: R$1500,00 por 40 horas semanais…”
Bem… nem precisa falar mais nada… Como diz o Orland, ZÉFINI!!!
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Cultura Econômica, Mercados Financeiros, Política Fiscal

O II Enbeco

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No ultimo dia 09 de março, encontramo-nos em Belo Horizonte, no Ibmec, para a realização do II Encontro Brasileiro de Blogueiros de Economia (Enbeco), organizado por Claudio Shikida e Cristiano Costa. No primeiro painel do evento, participaram os colegas Angelo Fasolo (The Duke of Hazard), Celso Toledo e Fabio Kanczuk (A Consciência de três Liberais), Drunkeynesian (Anônimo, mas não mais para os participantes do encontro!), que falaram sobre a crise do euro e o caso da Grécia, e concordaram que, após o ajuste da dívida grega, acabou a crise do euro, mas sem uninanimidade sobre a saída ou não da Grécia da zona do euro.

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No segundo painel, participamos eu, Thomas Kang (Oikomania) e Claudio Shikida. O tema era o uso dos blogs na sala de aula, eu iniciei o painel contando um pouco da minha experiência em usar o blog como repositório de textos sobre temas de macroeconomia e finanças, mas também como estratégia didática, com atividades que envolvem a participação ativa dos estudantes, conectadas a atividades em sala de aula e, obviamente, com avaliação e nota. Os colegas do painel contaram um pouco da história de seus respectivos blogs, mas sem um foco muito específico no tema. Num momento em que a internet ja vem revolucionando a educação, esse é um tema que não atrai os colegas professores de economia, aqui no nosso mundo – a maior parte vai mesmo na linha do “chalk and talk”… (veja esse post).

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O último painel contou com a participação de Cristiano Costa, Felipe Salto (Blog do Felipe Salto) e Fernando Meneguin (Brasil, Economia e Governo), tratando do tema fiscal, com a entusiasmada atuação do Cristiano, tentando chamar a atenção da platéia para o absurdo que é nossa estrutura tributária.

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Foi um encontro bastante divertido e informal, muito bem organizado, e que rendeu bons debates de idéias e, mais importante, a oportunidade para o público de conhecer um pouco mais das contribuições da blogosfera para a disseminação de informações e análises técnicas ou normativas sobre temas de economia.

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Obrigada a todos, patrocinadores, participantes e painelistas, e principalmente, ao Cláudio e ao Cristiano, pela organização do evento! 

Experiências no pós-doc, Mercados Financeiros, Política Fiscal

European Safe Bonds: uma solução viável?

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A crise da dívida na zona do Euro tem sido um dos principais assuntos na mídia internacional nos últimos meses. Não vou ficar chovendo no molhado, aqui. Mas, assistindo a um painel sobre o assunto promovido pelo Program for Economic Research de Columbia Economics, há cerca de duas semanas, que teve como participantes Richard Clarida (columbia Economics), Ricardo Reis (Columbia Economics) e Charles Calomiris (Columbia Business School), algumas perspectivas interessantes sobre o assunto foram debatidas, dentre elas a proposta de criação dos European Safe Bonds (ESBies), defendida por Ricardo Reis.

Clarida foi o primeiro a falar e se posicionou muito contrariamente às “exigências absurdas” da Alemanha para que Grécia, Espanha, Itália e Irlanda absorvam, por meio de seus governos, as dívidas de seus bancos a fim de evitar uma crise bancária sem precedentes, que se espalharia como fogo pelo sistema bancário europeu, uma vez que alemães e franceses são os principais detentores de tais dívidas.

Calomiris (ele é muito bem-humorado e distribuiu um instigante texto de 9 páginas que pode ser encontrado aqui) argumenta que a saída para a Grécia é mesmo o calote e a reestruturação da sua dívida, para o quê necessita, sim, deixar a zona do euro. Em sua avaliação, os países em crise apresentam três distintos problemas que requerem diferentes respostas de política econômica: 1) sobre-endividamento; 2) elevados déficits acompanhados de sobre-endividamento; e 3) perda de competitividade; – a Grécia conjuga os três, por isso requer tratamento emergencial. E Portugal vai no mesmo caminho… Já Irlanda e Espanha parecem não estar em rota de insolvência fiscal, principalmente se não absorverem as dívidas externas de seus bancos locais. E para ele, a Itália poderia resolver rapidamente o problema de sustentabilidade da dívida (sobre esse assunto, veja esse post) se cortasse gastos fiscais, mas isso parece pouco provável pois está politicamente quebrada. O final de seu texto não é muito animador: os governos preferem postergar medidas impopulares e o resultado provável será uma sequência caótica de medidas emergenciais e ad hoc, pouco coordenadas, tomadas em resposta às corridas aos bancos na Grécia ou em outro lugar, conforme depositantes desconfiem da conversibilidade de seus depósitos.

Ricardo Reis apresenta uma saída interessante e baseada nos mercados financeiros no lugar dos governos, propondo a criação de um ativo seguro para a e zona do euro, os ESBies. Essa proposta se consolidou a partir dos estudos e discussões de um grupo de economistas europeus (macroeconomistas e economistas financeiros)  que se reuniu no grupo denominado Euro-nomics e que tem como objetivos “systematically identify the weaknesses of the Eurozone design that have caused this crisis and propose remedies to end it”, nas palavras do próprio. O argumento principal para a proposta é que o mercado de dívidas soberanas da eurozona é fragmentado, e vem sendo tratado na última década como se todas as dívidas tivessem o mesmo grau de risco, o que, de certa forma, propiciou o fácil e crescente endividamento dos países que hoje se mostram insustentáveis. Além disso, tal fragmentação não propicia que os títulos europeus façam face aos títulos do tesouro americano, que, assim, ganham espaço como referência global de ativo livre de risco. A operacionalização da proposta exigiria a criação de uma nova instituição européia, a European Debt Agency(EDA), que desmembraria o portfólio das dívidas soberanas dos países membros em duas partes, os ESBies propriamente, que funcionaria como ativo livre de risco, e um “título junior” (junior claim??) que absorveria as possíveis perdas do conjunto de títulos, podendo servir como meio de investimento ou especulação de curto prazo.

A proposta é ousada e requer todo um esforço de institucionalização complexo, mas não impossível, em minha opinião. Porém, quanto mais a eurozona se afundar no prognóstico de Calomiris, mais difícil e custosa será a implementação de tal proposta. 

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Economia Matemática, Experiências no pós-doc, Política Monetária

“Não entendi o enredo desse SAMBA, amor…”

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Embora possa parecer pelo título deste post, esta não é mais uma tentativa de escrever sobre deus-e-sua-era como em post anterior, ainda que ela sempre esteja aberta e anunciada no próprio título do blog. Reconhecidamente, não tenho o talento e as “horas-bunda” (leia-se experiência vivenciada) de alguns colegas de profissão, como Eliana Cardoso, para fugir muito dos temas de economia, ainda. Voltemos a eles.

A menção à frase do samba composto por Jorge Aragão e Dona Ivone Lara destaca a palavra SAMBA como uma sigla. Como tem sido divulgado recentemente pela mídia, essa sigla nomeia o mais novo modelo de avaliação de políticas econômicas desenvolvido pelo Banco Central do Brasil (BCB), o Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach (SAMBA), nos moldes dos que têm sido adotados por bancos centrais no mundo todo ao longo da última década.

Para os que acompanham o Random Walk, isso não era novidade, pois o tema já foi tratado em,  Macroeconomia Moderna: convergência metodológica. A novidade é a divulgação em abril último, em forma de working paper, do SAMBA (veja aqui). A versão anterior, datada de setembro de 2008 circulou em meios restritos como trabalho para discussão em seminários e workshops de bancos centrais e apresentava ainda muitos problemas. A nova versão, em um calhamaço de 138 páginas (como divulgou recentemente o Estadão) está bem mais consistente em termos de representação da estrutura da economia brasileira. Eu tenho me debruçado sobre ela deste então… 

Os modelos da classe DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium), à qual pertence o SAMBA, apresentam duas características que podem justificar sua vantagem em relação aos macroeconômicos tradicionais, mais agregados: a primeira delas é que, em contraste com esses, é possível, dada uma correta especificação dos parâmetros da economia, utilizar os modelos DSGE para fazer previsões válidas e avaliar os impactos de mudanças de políticas econômicas, considerando a reação dos agentes a essas mudanças (livres da crítica de Lucas); e a segunda característica é o aumento na precisão das previsões que esses modelos propiciam.  

Eu tenho três pontos centrais de trabalho com tais modelos: 1. sua sensibilidade à escolha de parâmetros, e estou preparando minhas próprias estimativas dos parâmetros principais da economia brasileira para efeitos de comparação; 2. a capacidade do modelo em reproduzir as respostas empíricas, verificadas por meio da análise econométrica dos dados, grande calcanhar de Aquiles dos modelos estocásticos de equilíbrio geral, que vem sendo recentemente solucionada com a introdução de fricções financeiras nos modelos, e; 3. a sensibilidade dos resultados gerais à suposição de diferentes regras fiscais.

Claro… trabalho para mais de um ano! Por enquanto, estou “catando” os bugs (infinitos…) da primeira versão do meu modelo em Matlab, em breve espero ter resultados interessantes para compartilhar.

De toda forma, vale ressaltar que nenhum banco central do mundo toma decisão baseado apenas em resultados dos seus modelos DSGE. Afirmar isso, seja para o BCB ou qualquer outro, é completa falta de informação de como se gerencia política monetária ou má fé… Só mesmo para quem “não entendeu o enredo desse SAMBA, amor…”

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Cultura Econômica

Papel social do economista

 

Já falei algumas vezes, neste blog, sobre a formação e o papel social do economista. Concordo com a visão do colega Mansueto de Almeida, que mantém um excelente blog de economia, expressa no início da entrevista concedida à Rio Bravo (podcast 194) sobre política fiscal. Como dito em um post anterior:

“Os objetivos da política econômica não são definidos pelos economistas, acadêmicos ou práticos, nem pelos burocratas, tampouco pelos gestores da política econômica – no caso da política monetária, presidente, diretores e técnicos dos bancos centrais. A definição desses objetivos faz parte de um contexto mais amplo de escolhas sociais, políticas e econômicas, e, para o bem ou para mal, não tem outro fórum de decisão que não o político, ao menos em sociedades democráticas.”

E sobre o papel social do economista, também há concordância: estabelecer e avaliar os prós e contras de escolhas alternativas, também reportado num outro post:

“O Economista é um profissional que analisa e propõe soluções para problemas associados a escolhas de várias ordens: financeiras, produtivas, sobre alocação de recursos públicos, de tempo, sobre decisões de consumo, etc. Para identificar e analisar tais problemas, os Economistas têm um modo particular de pensar, um modo estruturado (para simplificar o todo complexo do mundo real), em que buscamos: caracterizar os fatores históricos, políticos e institucionais que afetam o problema; ressaltar as principais variáveis econômicas envolvidas;  hipotetizar relações entre elas a partir das teorias e modelos conhecidos; e obter observações reais (dados) para estas variáveis para que, se for o caso, possamos analisar o problema a partir de instrumentos estatísticos e fazer inferência sobre hipóteses de interesse.”

 

Também concordo com Mansueto que ainda temos um visão do papel do economista muito distorcida, oriunda da década de sessenta, em que este profissional se rogava o direito de ditar o que é bom ou mau para a sociedade. Quem dera pudéssemos apenas fazer bem o nosso papel social, aquele para o qual temos vantagens competitivas, e deixássemos as escolhas que envolvem juízo de valor para o fórum representativo da maioria.