Política

O Valor do Voto

Em meio a um “setembro negro” e decisivo pessoalmente, venho tentando escrever aqui sobre as atuais eleições. Ao mesmo tempo, questionava-me se seria necessário “mais uma análise” sobre o assunto, ainda que eu pretendesse discutir questões mais técnicas, que me vêm de algum conhecimento sobre teoria de escolha pública e correlatos. Enfim, o tempo passou, a análise não veio e, sim, eu acho que ela teria sido totalmente dispensável… Há especialistas demais e eu pouco ou nada teria a contribuir para minorar a avalanche de intolerância, radicalismo, má-fé e afins que se tornou marca da mídia quase completamente nessas eleições. No lugar dela, preferi falar neste momento pré-eleição, como alguém que sempre soube, desde a mais tenra idade, que apenas a educação pode propiciar igualdade de oportunidades ou diminuir as desigualdades delas. Esse “saber” nem eu mesma sei explicar de onde, talvez de uma fina intuição, de uma percepção aguçada do entorno e de querer, a partir daí, romper aquilo que parecia, com uma brutalidade tamanha, fazer questão de grudar meus horizontes a um palmo do meu nariz. E ali, naqueles horizontes restritos, a educação, o conhecimento, e só ele, seria a via de libertação – eu sabia. Cada livro, dos poucos que me chegavam então, abria mais uma porta, acendia mais uma luz, e assim foi, e assim é, ainda hoje. E assim, também bem cedo, decidi que meu voto, em qualquer eleição, seria sempre em favor da diminuição das desigualdades sociais pelas vias democráticas. Eu quero crer que, depois de superar a miséria material, estado deplorável de condição humana, o próximo passo da demanda social será por mais e melhor educação, em todos os níveis. E aí, sim, estaremos rumando para o desenvolvimento socio-econômico. Sim, isso ainda demora décadas, eu não vou viver para ver, infelizmente, mas fico feliz com a possibilidade de que estejamos caminhando nesse sentido. É isso. Esse é o valor do meu voto. Cada um que tenha o seu, e que respeitemos as diferenças! Boa eleição a todos!

Cultura Econômica, Economia Matemática, Ensinando Economia

Dinâmica econômica – o mundo é dinâmico!

Quando se observa a economia em funcionamento, observa-se um mundo em movimento, dinâmico. Isso, em geral, acaba confundindo os estudantes de economia (e muitos dos economistas profissionais, infelizmente…), levando-os a pensar que os modelos estáticos, aqueles em que o tempo não aparece explicitamente, são inúteis para entender o mundo real.

Ao estudar dinâmica econômica, o tempo passa a ser a variável-chave e o foco da análise é a trajetória das variáveis de interesse (os preços ou as quantidades de bens específicos, sob diversas estruturas de mercado, o produto da economia, a taxa de juros, a taxa de câmbio, a dívida pública, etc…). A trajetória, para grande parte das variáveis econômicas, deve convergir para seus valores de equilíbrio intertemporal, que correspondem exatamente aos equilíbrios estudados nos modelos estáticos (cerca de 80% de toda a teoria que se estuda em uma graduação de economia é estática).

Uma ilustração gráfica de uma análise dinâmica poderia ser (em tempo contínuo):

Com este tipo de análise, pode-se avaliar como (com que formato de curva, neste caso, exponencial) e com que velocidade (quanto tempo) a variável se aproxima do equilíbrio. No entanto, também se aprende que, em geral, ela efetivamente nunca alcança o tal equilíbrio, nem mesmo se deixarmos o tempo passar infinitamente… Aí que surgem as confusões seguidas de desprezo pelas teorias estáticas. E aí também que está o erro!! Conceitualmente, é muito importante sabermos para que valor (equilíbrio intertemporal) tende a variável, ou, se a trajetória não for estável, de que valor a variável se afasta de forma persistente (situações de bolhas especulativas nos mercados financeiros ou de hiperinflação se aproximam desse caso). Importante também é analisar a velocidade de convergência e de que parâmetros do modelo ela depende, bem como em quanto tempo nos aproximamos o suficiente do equilíbrio intertemporal.

Ao longo do tempo, a trajetória da variável de interesse pode sofrer mudanças devido a alterações exógenas ou a choques aleatórios. Por exemplo, quando analisamos a trajetória das flutuações de curto prazo do produto da economia, sabemos que o equilíbrio sofre alterações em consequencia de mudanças de política monetária ou fiscal, fazendo com que a trajetória mude e inicie um caminho (longo ou curto, a depender dos mecanismos de transmissão expressos nos parâmetros numéricos do modelo) de aproximação a esse novo equilíbrio intertemporal, e é isso que observamos quando olhamos o mundo em funcionamento!!

PS. Aos alunos de Mat. Aplic. II, o último exercício da lista trata disso!!




Nível de atividade, Política Fiscal, Política Monetária

Voando alto demais

 

Outro dia, numa sala de aula, tratava de explicar aos alunos que hoje consideramos haver uma visão comum da macroeconomia, que evoluiu gradualmente a partir da revolução das expectativas racionais na década de 70 do século passado e se consolidou na década de noventa, tanto do ponto de vista teórico, quanto de aplicação prática.

Nesse novo consenso da macroeconomia moderna, podem-se destacar cinco componentes fundamentais:

1) O produto real de longo prazo está associado à produtividade de fatores de produção e tecnologia;

2) Não há tradeoff de longo prazo entre inflação e desemprego – a política monetária é neutra em relação às variáveis reais no longo prazo;

3) Há tradeoff entre inflação e desemprego no curto prazo, com importantes impactos sobre a flutuação econômica em torno da tendência de crescimento do produto;

4) As expectativas de inflação e das decisões de política futuras afetam as decisões dos agentes no presente;

5) A gestão da política monetária por meio de regras é preferível à discricionariamente, ajustando a taxa de juros nominal de curto prazo – o instrumento de política monetária – em reação aos eventos econômicos.

Na oportunidade, iniciamos também uma discussão sobre os impactos da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevação da taxa de juros sobre o crescimento da economia. Argumentei, à luz dos desenvolvimentos teóricos sintetizados nos cinco pontos anteriores, que o importante para o crescimento econômico sustentável são fundamentalmente fatores que limitam a capacidade de produção da economia, ligados, portanto, à oferta agregada no longo prazo, quais sejam:  crescimento da produtividade do trabalho e do capital por trabalhador e desenvolvimento de novas tecnologias de produção.

E então, apresentei o seguinte gráfico ilustrativo deste raciocínio:

Nele, as retas com inclinações diferentes representam taxas de crescimento real do produto de longo prazo distintas, segundo os fatores apontados acima. Associei a reta mais inclinada (maior crescimento) à China e a menos, ao Brasil, pontuando que a produtividade do trabalho (capital humano) depende fundamentalmente da educação…

Por outro lado, as flutuações de curto prazo em torno da tendência de crescimento refletem principalmente os movimentos de demanda agregada, que o governo tenta minimizar por meio da política econômica.

Este é o assunto de um artigo da “The Economist” desta semana, intitulado “Voando alto demais” (veja repercussão no site da BBC Brasil): “o Brasil não é a China”, e pode entrar em colapso se crescer a mais de 5% ao ano, segundo artigo.

Quando o país cresce a taxas maiores que aquela compatível com suas condições de oferta de longo prazo, há inevitáveis pressões sobre os preços dos bens e serviços (aumentando a inflação), o que leva o governo a implementar políticas restritivas, como a última atuação do Copom na política monetária. É como se estivéssemos numa daquelas cristas das flutuações de curto prazo, com produto bem acima do potencial, e a política monetária trata de fazer a demanda agregada “se comportar”, elevando a taxa básica de juros para conter o consumo das famílias e os parcos investimentos produtivos,  mas… sem que seja o governo que tenha de gastar menos!! Simples, não? 

As implicações das amplas diferenças nas taxas de crescimento reais ao longo do tempo sobre o bem-estar são  enormes e se revelam nas condições de nutrição, saúde, alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida, etc, de uma população, ultrapassando em muito qualquer possível efeito das flutuações de curto prazo.

Bem, acho que não preciso dizer mais nada.

Ensinando Economia, Nível de atividade, Política Monetária

Macroeconomia das Curvas que Pulam

 

O banco central faz política monetária restritiva, a curva LM pula para a esquerda e para cima, a taxa de juros de equilíbrio sobe e a renda de equilíbrio cai.

Foi assim que você aprendeu macroeconomia (ou economia, em geral)? Eu sinto informá-lo, mas, parafraseando um velho amigo dos tempos de mestrado, “ou você enganou o sistema ou sistema enganou você”… Nesse caso, suponho que esteja mais para “o sistema enganou você”, infelizmente…

O instrumental matemático, algébrico ou gráfico, é apenas uma linguagem para expressar a lógica econômica, ou o modelo econômico, utilizado para descrever e compreender os fenômenos, é um meio, não um fim em sim mesmo. As curvas e os seus deslocamentos nos gráficos,  “as curvas que pulam”,  representam de maneira simplificada as decisões dos agentes econômicos frente à mudança em algum aspecto do seu conjunto de informações (um experimento de estática comparativa típico) e o resultado da interação entre os agentes a partir daí, e é isso que é importante compreender.

No caso do exemplo acima, o banco central pode realizar a política restritiva alterando um dos seus instrumentos de política monetária, por exemplo, vendendo, por meio dos seus dealers (instituições financeiras autorizadas a agir em nome do banco central), títulos públicos de curto prazo no mercado secundário (um mercado eletrônico, denominado Sistema Especial de Liquidação e Custódia – Selic, no caso brasileiro). Ao vender títulos, o banco central causa um desequilíbrio nesse mercado, do tipo excesso de oferta de títulos, e paralelamente de excesso de demanda por moeda (coloca títulos em circulação e retira moeda de circulação – diminui a oferta de moeda), os preços dos títulos começam a cair, e, simultaneamente, suas taxas de retorno se elevam. Com taxas de juros mais elevadas e mesmos níveis de renda, o equilíbrio monetário (ou financeiro, como queiram) é restabelecido, já que os agentes demandarão menos moeda frente à elevação no seu custo de oportunidade, a taxa de juros. Este movimento de realocação de portfólio dos agentes frente à política monetária é representado graficamente por um deslocamento para esquerda e para cima da curva LM (Liquidity equal Money, a curva que representa o equilíbrio financeiro). Na sequência do raciocínio lógico, observarmos a interação entre o lado financeiro e o lado real da economia, o mercado de bens e serviços, cujo equilíbrio é representado pela igualdade entre investimento e poupança, a curva IS (Investment equal Saving). Com taxas de juros em elevação, o investimento produtivo cai, diminuindo a demanda agregada e, em consequência a renda (o produto) da economia. Neste movimento, enquanto a renda cai, as pessoas desejam menos moeda e isso requer que a elevação da taxa de juros inicial seja menor que a que seria necessária se a renda permanecesse constante. Os agentes só param de rever suas decisões quando os ajustes em taxa de juros e renda tiverem sido suficientes para que não haja mais nem excesso de oferta de títulos, nem excesso de demanda por moeda, nem excesso de oferta de bens e serviços, e o novo equilíbrio macroeconômico assim alcançado apresentará um valor menor para a renda e um valor maior para a taxa de juros, que no equilíbrio inicial, sob as hipóteses usuais deste modelo simplificado de curto prazo.

 Percebeu a diferença entre saber macroeconomia e saber a “macroeconomia das curvas que pulam”?

 

Câmbio, Mercados Financeiros

O sobe e desce do câmbio

 

O que é a taxa nominal de câmbio?

Comecemos com este esclarecimento. Embora leve o nome de “taxa” tal variável é o preço de uma unidade de moeda estrangeira em termos de moeda doméstica. Se falamos da taxa nominal de câmbio do dólar americano, como é o caso, estamos falando do preço do dólar em reais. Assim, se a taxa de câmbio é de 1,76 isso significa que necessitamos de R$ 1,76 para comprar US$ 1,00.

A determinação de desse preço depende do tipo de regime cambial escolhido pelo governo, como parte de seus objetivos de política econômica, e todo regime tem vantagens e desvantagens. Os governos podem adotar regimes em que a taxa nominal de câmbio seja fixa, e neste caso há um compromisso por parte do governo, frente aos agentes privados, de comprar e vender a moeda estrangeira ao preço pré-determinado. As implicações  principais desta escolha estão associadas à condição de realização de política monetária – o governo fixa o câmbio e abre mão de conduzir a política monetária de acordo com as necessidades e os objetivos internos. Porém, se o governo quer ter condições de gerenciar a política monetária, necessariamente deverá deixar a taxa nominal de câmbio ser determinada pelo mercado cambial, num regime de câmbio flexível administrado. Este é o caso de países que adotam o regime monetário de metas de inflação, como o Brasil.

O mercado cambial é, então, um mercado em que se compra e vende um ativo financeiro, a moeda estrangeira, e se constitui, dessa forma, em um segmento dos mercados financeiros. Ao operar sob um regime de flexibilidade administrada, compreende-se que o preço do ativo negociado, precisamente a taxa nominal de câmbio, seja formada pelo equilíbrio das forças de mercado: oferta e demanda de divisas (moeda estrangeira, dólar, no caso).

Do lado do fluxo de ofertas de dólares, estão, principalmente, os exportadores que vendem suas mercadorias ao resto do mundo, recebem em dólares e trocam (ofertam) tais dólares no mercado cambial para transformá-los em reais e utilizá-los internamente em suas atividades; também estão os capitais de curto e longo prazos que entram em busca de ganhos em nossos mercados financeiros (capitais de curto prazo) ou para ser aplicados em alguma atividade produtiva (longo prazo, na forma de investimento direto estrangeiro, em geral).

Pelo lado da demanda, encontramos, principalmente, os importadores que necessitam trocar seus reais por dólares para fazer face aos pagamentos dos bens e serviços comprados dos estrangeiros; também estão os investidores que saem do país para buscar nos mercados internacionais outras oportunidades, sejam eles estrangeiros que entraram no país em determinado momento anterior, sejam brasileiros investindo seus capitais de curto e longo prazos em outros países.

O governo pode entrar do lado de ofertante ou demandante de moeda estrangeira, se considerar que os fluxos de demanda e oferta de mercado estão formando uma taxa “inadequada” ou gerando excessiva variação (volatilidade) neste preço. Claro, para entrar vendendo dólares o governo deve ter reservas desta moeda, que compõem as chamadas Reservas Internacionais, hoje, no Brasil, em mais de 240 bilhões de dólares. 

Ao observamos o gráfico acima, notamos claramente que o preço do dólar caiu de forma persistente de março a outubro do ano passado, principalmente devido ao desempenho das exportações frente às importações e também à entrada de capital estrangeiro, tanto de curto quanto de longo prazos, favorecida pela busca de mercados considerados estáveis frente à crise financeira internacional – o Brasil estava nessa classe. Câmbio em baixa é bom para a estabilidade de preços domésticos (inflação sob controle), mas prejudica as receitas em reais dos exportadores… não foi à toa que o governo acumulou aquela montanha de reservas internacionais.

A partir de 2010, a taxa média, até 07/04, foi de R$ 1,798 por dólar, com uma volatilidade de 2,28%. Comparando-se ao período de mais estabilidade anterior, que foi de 15/10 a 31/12/09, a taxa média de câmbio foi de R$ 1,737 por dólar e a volatilidade, de 1,23%. Ou seja, tanto a média quanto a variabilidade do câmbio subiram no período mais recente, mas nada que não possa ser considerado normal como resultados da operação de um regime de câmbio flexível administrado.

 

Política Monetária

Por que o “mercado” acerta a taxa de juros?

 

Sempre que está para ocorrer uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a mídia realiza pesquisa com analistas de mercado sobre suas expectativas a respeito de qual será a decisão do Copom e, em geral, eles estão corretos em suas previsões.

Na semana passada, pesquisa da Reuters mostrou que “de 31 economistas ouvidos, 18 previam Selic estável este mês. Dos 13 que projetavam alta, 12 apostavam em elevação de 0,50 ponto percentual e um estimava alta de 0,25 ponto.” (citando UOL Notícias)

Por que isso acontece?

Existe inside information (informação privilegiada)? Ou será que os analistas de mercado dispõem de uma excelente bola de cristal?

Nada disso. Em geral, os analistas responsáveis pelas projeções sabem como funciona o regime de metas de inflação, bem como o modo pelo qual o Banco Central gerencia a política monetária. Dois requisitos são fundamentais para isso: a credibilidade e a transparência na atuação do Banco Central. E é muito importante que haja essa convergência entre o que os agentes que tomam decisões acham sobre os caminhos futuros da macroeconomia brasileira, leia-se, em última instância, os caminhos do PIB e da inflação, e o que o Banco Central acha, quando se escolhe gerenciar a política monetária por meio de um regime de metas de inflação.

Os anos da década de noventa marcaram o alcance de um consenso sobre o objetivo de longo prazo da política monetária: estabilidade de preços. Algum trade-off entre inflação e desemprego tem lugar, ainda, no curto prazo, uma vez que rigidezes nominais ou reais são admitidas.

Uma questão central de qualquer regime monetário diz respeito ao uso de uma âncora nominal para propiciar o alcance da estabilidade de preços. 

O que é uma âncora nominal? A âncora nominal é uma restrição sobre o valor da moeda nacional, necessária para sucesso de regimes monetários, e que provê condições para que o nível de preços da economia seja unicamente determinado.

No caso do regime de metas de inflação, a âncora nominal é exatamente as expectativas do público quanto à inflação futura, sendo extremamente importante que Banco Central comunique ao mesmo público, de forma clara e objetiva, como avalia a trajetória futura da macroeconomia. Para isso, em 2000, o BC iniciou a publicação de uma série de trabalhos para discussão, criando um canal de troca de informações e debate técnico com o público acadêmico e do mercado financeiro a respeito dos modelos e técnicas que poderiam, a princípio, ser utilizados como suporte para a tomada de decisão de política monetária, criando massa crítica para a compreensão mais ampla e profunda do funcionamento da economia brasileira. Além disso,   publica o Relatório de Inflação trimestral, divulga o cronograma das reuniões do Copom para o ano seguinte com a periodicidade das reuniões, composição e atribuições e competências de seus integrantes; divulga as decisões do Copom imediatamente, sendo que as atas explicando os motivos para a decisão tomada são divulgadas após uma semana – o que vem ocorrendo desde o início de 2000.

Assim, eu me preocuparia muito se, ao contrário, os analistas de mercado e agentes formadores de opinião em geral começassem a errar mais que acertar ao prever as decisões do Copom sobre a taxa básica de juros.

 

Cultura Econômica, Nível de atividade

PIB, o que é isso mesmo?

 

Nesta última quinta-feira (11/03), o IBGE divulgou a revisão do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de 2009, revelando praticamente uma estabilidade – ou seja nem caiu, nem subiu em termos reais. Ótimo, todos os meios de comunicação divulgaram a notícia, alguns destacando com euforia o fato de que o Brasil esteve melhor que a maior parte dos países de mais relevância no mundo.

Aproveito o tema para chamar a atenção para dois aspectos: o primeiro em relação ao conceito, o segundo em relação à relevância do resultado.

Quanto ao primeiro aspecto, basta fazer um “googling” do termo para observar que há, em geral, uma tendência a se afirmar que o PIB “é a soma das riquezas” de um país num determinado período de tempo. Tudo bem que a mídia utilize uma linguagem simples para transmitir conceitos pouco usuais, mas ela também deve ser precisa e correta. Riqueza é estoque e o PIB é fluxo. Explico com um exemplo: quando você começa sua vida profissional e recebe o seu salário mensal de R$ 1000,00, a cada mês você gasta 80% de sua renda e poupa o restante. Tanto sua renda quando sua poupança, assim como seu consumo (seus gastos), são valores medidos em fluxos mensais. O período de tempo considerado faz toda a diferença na mensuração e comparação de fluxos, assim, se passarmos a medir tais fluxos em trimestres, sua renda passa a R$ 3000,00 e sua poupança, a R$ 600,00. Em anos? Sua renda vai a R$12000,00 e sua poupança R$ 2400,00 anuais. Observe que aquilo que você poupou ao longo do tempo vai se acumulando, e se olharmos para o quanto você terá guardado ao final de 10 anos, serão 24 mil reais (estou desconsiderando juros eventuais, para uma análise simples). Estes 24 mil reais são sua riqueza, seu estoque. O mesmo acontece na mensuração do nível de atividade de um país, o PIB, num ano ou trimestre, é uma medida do fluxo de bens e serviços produzidos no período e que estão disponíveis para serem comprados pelas famílias, pelas empresas ou pelo governo, nacionais ou de outros países, ou seja, o que chamamos de bens e serviços finais.

Assim, esse fluxo de novos bens e serviços que forem comprados e consumidos por famílias ou para custeio do governo serão os bens de consumo, por empresas ou por governos para gerar novos bens e serviços, serão os bens de capital, e somarão o Investimento privado e público do país, por famílias, empresas e governos de outros países, constituirão as exportações nacionais.

Da mesma maneira que sua poupança mensal constituiu seu estoque de riqueza no exemplo acima, o investimento privado e público constitui o estoque de capital da economia como um todo – importante determinante do crescimento econômico sustentado ao longo do tempo (falaremos disso num próximo post). Neste aspecto, as últimas notícias preocupam, pois o Investimento de 2009 caiu 9,9% e foi a principal causa da queda de 0,2% do PIB…

O outro aspecto para o qual eu gostaria de chamar a atenção diz respeito ao significado prático do resultado do PIB brasileiro. O PIB dividido pelo número total de habitantes do país, PIB per capita, mensura uma dimensão relevante do bem-estar, ou da qualidade de vida, e com estes resultados podemos dizer que os brasileiros, em conjunto, pioraram seu nível de bem-estar, pois, com o crescimento populacional de quase 1%, o PIB per capita caiu em 1,2% em 2009, em relação ao ano anterior. O quão boa é a medida do PIB per capita como uma aproximação à qualidade de vida da população é uma questão que economistas do porte de Amartya Sen já trataram, contribuindo para o desenvolvimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – sobre o qual também voltaremos a falar em breve.

 

 

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Inaugurando

 

Finalmente decidi, com a firmeza de convicção necessária, iniciar um blog – uma decisão parecida com aquelas de início de ano… Uma decisão difícil, preciso dizer, para quem ter por hábito e por força de profissão o cuidado com a língua pátria segundo a norma culta, o burilar de um texto por semanas, às vezes meses…

Isto aqui exige rapidez, despojamento, desapego e, principalmente, coragem para expor erros de toda sorte, humildade para corrigi-los quando descobertos ou apontados pelos leitores, ou mesmo um certo desleixo em deixá-los lá onde estão ainda que sabidos. Grande desafio!

Não pretendo trazer para este espaço discussões extremamente técnicas e/ou complexas em minha área de atuação, a Economia – para isso faço uso de outros fóruns. Ao contrário, quero aqui aperfeiçoar minha capacidade de falar sobre economia numa linguagem simples e acessível, até mesmo informal, permitindo-me emitir avaliações normativas – o que procuro não fazer em sala de aula – sobre os diversos temas tratados.

No entanto, Economia não é minha única paixão – sou uma pessoa de múltiplos interesses; o que torna quase impossível circunscrever a temática deste blog… Por isso o título, mais que adequado: Random Walk (Passeio Aleatório) –  um Passeio Aleatório por assuntos, notícias, temas que considero merecerem algum comentário, às vezes técnico, racional, às vezes amador, subjetivo…

Você saberá lendo!

Bem-vindos!!