Inflação, Política Monetária

E-Ecec: A busca da estabilidade e o regime de metas de inflação: lições do caso brasileiro

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“Buscando reverter as expectativas e restabelecer a credibilidade da política monetária devido à mudança de regime cambial em janeiro de 1999 – depois de um período de estabelecimento de uma âncora nominal baseada no câmbio (1995-1998), o BCB reconheceu a urgência de uma âncora nominal para a economia por meio do regime de metas de inflação, ou inflation targeting (IT). Em 21 de junho desse ano, o país aderiu formalmente a esse sistema com o decreto 3.088. Nove dias depois, a Resolução 2.615 definiu o índice de preços e as metas para 1999 e para os próximos dois anos.

No regime de metas de inflação, a autoridade monetária anuncia publicamente metas para a inflação futura, isto é, adota uma atitude forward-looking, com ações de comprometimento com a meta estabelecida. Entre os elementos fundamentais do IT, são apontados por Mishkin:

  1. anúncio público de metas numéricas de médio prazo para a inflação;
  2. comprometimento institucional com a estabilidade de preços;
  3. a atuação da autoridade monetária deve ser pautada na transparência e comunicação;
  4. mecanismos de monitoramento da atuação da autoridade monetária.

Para analisar a implementação das metas de inflação é relevante considerar aspectos como o índice de preços, largura da banda de variação, horizonte da meta, cláusulas de escape e prestação de contas em caso de descumprimento. No Brasil, bem como na maior parte dos países que adotam IT, foi escolhido um Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), tendo como horizonte da meta o período de 12 meses.

A Figura 1 mostra a flutuação do IPCA e da expectativa de inflação Focus, bem como o intervalo de tolerância praticado em cada período:

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Desde sua adoção, a inflação efetiva ultrapassou o intervalo de tolerância em 2001, 2002, 2003 e 2015, como mostrado detalhadamente na Figura 2. Toda vez que as metas estabelecidas pelo CMN não são cumpridas, cartas públicas do Presidente do BCB são enviadas para o Ministro da Fazenda explicando os motivos do descumprimento e as medidas para atingir o que foi inicialmente proposto.

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O contato com o público não é uma exclusividade dos Bancos Centrais que adotam o regime de metas de inflação. Porém, as autoridades monetárias que o adotam tomam um passo a frente ao publicarem documentos como os Inflation Reports. Esses esforços decorrem do que é apontado por Mishkin quanto a questão da transparência ser um elemento fundamental para o IT. Em 2002, a carta do presidente do BCB revela que o descumprimento da meta foi explicado pelo cenário internacional e pelo efeito da forte depreciação do real sobre os preços de 2001, tônica que persiste na carta de 2003. No ano seguinte, a persistência da inflação e da deterioração das expectativas impediram o cumprimento da meta nos limites estabelecidos.

Em 2016, o fator preponderante foi a intensidade inesperada do ajuste dos “preços administrados” em relação aos “preços livres” e dos preços domésticos em relação aos internacionais. Como ações previstas para convergir à meta, a carta ressaltou a importância de se manter vigilante aos ajustes de preços relativos de forma a ancorar as expectativas novamente.

Por fim, como aponta Minella e outros (2002), o regime de metas de inflação passou a ser um importante mecanismo coordenador de expectativas, de forma geral, orientando o processo de formação de preços. Os movimentos de política monetária passam a ser mais previsíveis ao mercado no médio prazo e as expectativas de inflação podem ser formadas com mais eficiência. A partir do momento em que a política monetária constroi credibilidade, os reajustes de preços tendem a ser próximos à meta. Uma consequência, verificada na experiência brasileira, refere-se à redução do grau de persistência da inflação.

 

Referências

BOGDANSKI, Joel; TOMBINI, Alexandre A.; WERLANG, Sergio R. da C. Implementing inflation targeting in Brazil. Banco Central do Brasil. Working Paper, n. 1, 2000. Dsiponível em: <https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps01.pdf&gt;

MISHKIN, Frederic S. The economics of money, banking, and financial markets. Pearson education, 2013.

MINELLA, André et al. Inflation targeting in Brazil: lessons and challenges. Banco Central do Brasil Working Paper, n. 53, 2002. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps53.pdf&gt;

MINELLA, André et al. Inflation targeting in Brazil: constructing credibility under exchange rate volatility. Journal of international Money and Finance, v. 22, n. 7, p. 1015-1040, 2003. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps77.pdf

SILVA, R. Estabilidade Econômica e metas de inflação: uma avaliação do caso brasileiro. Tese (Doutorado), FEA/USP, São Paulo, 2002.

 

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