Ensinando Economia

Qual é o seu estilo de aprendiz?

 

Pensar sobre esse tema e  tentar responder a essa pergunta é sempre bastante útil, já que a vida é um aprendizado constante,  mais útil  ainda quando as provas intermediárias estão para começar e o tempo parece não ser suficiente para se preparar bem (não parece, mas é – veja este post sobre método de estudo).

Há estudantes que aprendem melhor de forma sequencial, indo do particular para o geral, já outros compreendem melhor um tema quando têm uma visão mais global sobre ele, e depois exploram os detalhes particulares; também há diferenças entre a apreensão de conteúdos visualmente, associada a memórias visuais, e para estes estudantes, mapas conceituais, diagramas, fluxogramas, etc, ajudam muito no seu processo de aprendizagem; outros são mais verbais e aprendem melhor lendo e ouvindo. Uns, mais ativos, outros, reflexivos; ou ainda mais sensitivos, preferindo fatos, métodos bem estabelecidos a possibilidades e formulações matemáticas, por exemplos.

Para saber mais sobre os estilos de aprendizagem, consultem a fonte que utilizei nesse breve resumo:

LEARNING STYLES AND STRATEGIES dos professores Felder e Soloman, que produziram um indicador de estilo de aprendizagem a partir de um questionário com 44 itens, como um teste para classificar seu estilo dentro das quatro dimensões que citei.

Para fazer o teste: http://www.engr.ncsu.edu/learningstyles/ilsweb.html

Reporto aqui as observações que os próprios autores fazem, na página de apresentação do índice:

  1. The ILS results provide an indication of an individual’s learning preferences and an even better indication of the preference profile of a group of students (e.g. a class), but they should not be over-interpreted. If someone does not agree with the ILS assessment of his or her preferences, trust that individual’s judgment over the instrument results.
  2. A student’s learning style profile provides an indication of possible strengths and possible tendencies or habits that might lead to difficulty in academic settings. The profile does not reflect a student’s suitability or unsuitability for a particular subject, discipline, or profession. Labeling students in this way is at best misleading, and can be destructive if the student uses the label as justification for a major shift in curriculum or career goals. (A learning style preference also does not serve as an excuse for a bad grade on the student’s last physics test.)

Mas garanto que é, no mínimo, divertido!!

Eis aqui o meu resultado:

Learning Styles Scales – Roseli

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Experiências no pós-doc

Voltando à vida normal…

 

Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à rotina da vida normal… Se bem que não há muita rotina na vida de um acadêmico, e esse é um dos fatores que me fez escolher essa carreira: não sirvo para trabalho 9-às-6. Meu trabalho está sempre comigo, às vezes viro noites terminando o estudo de um artigo, às vezes passo dias estimando modelos econométricos, outras ainda escrevendo, escrevendo, escrevendo resultados e reflexões sobre minha própria pesquisa… Estas atividades solitárias, em período letivo, são recheadas pelo contato com a moçada, os estudantes – a cada semestre tornamos a mesma disciplina que eu já lecionei em algo dinâmico e diferente. Minha vida pessoal também não é caracterizada pela rotina, não conservei nem casa nem carro ao longo desse ano e nada material me espera em meu retorno… Só o carinho, o amor e a saudade imensa da família e amigos me esperam, ou seja, o que de fato importa na vida! 

Então, reformulo: Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à vida normal!

Tudo experimentado, vivido, aprendido ao longo desse ano, difícil em muitos aspectos, mas também prazeroso e estimulante em tantos outros, deixa marcas profundas em quem eu sou hoje e em quem serei daqui para frente. Nova York é uma cidade fantástica e me adaptei muito bem aqui, sou uma mulher de grandes metrópoles – fato. A Universidade de Columbia, um ambiente acadêmico de excelência, um tanto hostil, mas ainda menos que os nossos pretensos redutos do saber… as oportunidades de aprendizado que tive aqui são inestimáveis. Não volta a mesma Roseli, muito menos a mesma Professora Roseli… esta ainda mais cheia de ideias e, como sempre, muito preocupada com o ensino e as práticas didáticas, num momento em que os fundamentos da ciência econômica estão sob questionamento.

Ainda estou em dúvida sobre qual o momento mais difícil: aquele que antecedeu minha vinda, ou este, que antecede a volta. Estando nele, não sou capaz de julgar… mas é fato que o atual traz um elemento totalmente desconhecido para mim até então: o que essa nova Roseli vai achar daquela vida normal? Será que elas vão se entender bem? Será que a readaptação vai ser suportável? Será que a minha vida normal de antes também será outra a partir de agora?

Não sei as respostas. Já aprendi também que o medo do desconhecido, até certo ponto, é saudável… e que crescer, dói. Ainda assim sempre escolho os caminhos do crescimento. De resto… carpe diem!

 

 

Econometria, Mercados Financeiros

Interligação e contágio entre bolsas de valores

 

Tenho desenvolvido uma pesquisa sobre esse assunto, que ficou na gaveta esperando os efeitos das crises de 2007/2008 aparecerem devidamente nas séries temporais de índices de liquidez das bolsas de valores de quase 30 países. Quem trabalha com evidências empíricas entende o que digo: choques aleatórios ou quebras estruturais são eventos imprevisíveis (isso mesmo!) e tê-los no início ou no final de um período amostral é tudo o que um econometrista não precisa!

Pois bem, retomei o tema e atualizei, com a ajuda de um ex-aluno, o banco de dados e o trabalho entrou na lista dos que pretendo finalizar neste ano. Basicamente, a pergunta fundamental que busco responder é se há oportunidades de arbitragem de longo prazo entre os países estudados, ou, ao menos, entre grupos de países de classe de risco diferentes.

A interligação entre mercados financeiros internacionais, principalmente a partir dos anos noventa, tem sido tema recorrente de trabalhos teóricos e empíricos. As possibilidades de diversificação do risco, associadas à maior mobilidade e flexibilidade do movimento de capitais internacionais, levam à hipótese de que os mercados acionários domésticos já estejam apresentando uma significativa associação de longo prazo e de que a interdependência de curto prazo, que se revela nas relações dinâmicas entre esses mercados, também possa ser significativa e, assim, forneça informações importantes para a tomada de decisão por parte do investidor internacional, uma vez que podem implicar em previsibilidade e potencializar ações de estratégia de transação e hedge.

Há várias metodologias para avaliar essa questão, e é importante também distinguir  contágio e interligação.

Forbes e Rigobon (1999 e 2000)* discutem a literatura sobre contágio, mostrando que não há consenso sobre o que exatamente constitui o contágio ou como ele deveria ser definido. Os mesmos autores apontam que uma definição preferida do termo tem sido: “propagação de choques em excesso ao que poderia ser explicado pelos fundamentos”. Utilizando o exemplo dos impactos da crise russa sobre o mercado de ações brasileiro em 1998, contrargumentam que esses países não possuíam, então, quaisquer ligações comerciais fortes, ou competiam nos mesmos mercados, e tinham apenas poucas ligações financeiras diretas de tal forma que dificilmente se poderiam caracterizar ligações entre os fundamentos desses países, a não ser pelo aspecto fiscal e de endividamento semelhante. Os autores em questão enfatizam, ainda, que um problema de ordem prática (como medir?) também está associado à definição de contágio baseada em fundamentos econômicos.

Os mesmos autores sintetizam três metodologias clássicas para testar o contágio ou a interligação entre mercados acionários: correlação entre os retornos; análise de cointegração e modelos de volatilidade.

Minha pesquisa utiliza a metodologia de cointegração multivariada e caminha para a aplicação também de modelos multivariados de volatilidade. Espero em breve reportar alguns resultados aqui! Aguardem!

 

* FORBES, K.; RIGOBON, R. No Contagion, only Interdependency: Measuring Stock Market Co-movements. NBER Working Paper 7267, 1999.

FORBES, K.; RIGOBON, R. Contagion in Latin America: Definitions, measurement, and policy implications. NBER Working Paper 7885, 2000.

 

Cultura Econômica, Ensinando Economia

ENEF: informar ou formar?

 

A Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) é uma iniciativa de um conjunto de instituições públicas e privadas dos mercados financeiros, com apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que desenvolve um projeto de Educação Financeira na Escola com objetivo de introduzir o tema a 450 escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins, Ceará e Distrito Federal, abrangendo um universo de mais de 18 mil estudantes.

A última edição (Edição No. 8, 2010) da Revista Nova Bolsa traz uma matéria sobre o assunto, da jornalista Silvia Penteado, para a qual eu contribuí com uma entrevista por e-mail e que aparece citada na p. 41 da referida revista. No momento de concessão daquela entrevista, eu não tinha conhecimento sobre o material didático desenvolvido e chamei a atenção exatamente para esse ponto: a necessidade de se desenvolver uma metodologia de ensino inovadora e eficiente.

Atualmente, tenho um exemplar do primeiro módulo do material desenvolvido para o projeto e o analisarei em breve, por isso ainda me faço a pergunta do título deste post (postarei comentários sobre). Paralelamente, sigo com minhas pesquisas sobre metodologia de ensino de economia e o uso de experimentos e simulações para torná-lo mais efetivo para jovens da era da internet (sobre o assunto, veja os postsEconomia no Ensino Médio” e  “Ensinando Economia por meio de jogos em sala de aula” )

Reproduzo, na íntegra, a entrevista concedida:

SP 1). Gostaria de saber o que vc acha dessa iniciativa do governo, a Estratégia Nacional de Educação Financeira?

R. Acho a iniciativa louvável e em sintonia com o tratamento do tema nos países europeus que se intensificou recentemente. O conhecimento básico de economia, acredito, deve fazer parte da cultura geral de cidadãos bem-informados, contribuindo para capacitá-los a tomar decisões mais apropriadas no seu dia-a-dia, em relação às suas compras diárias, à alocação do seu tempo e de sua renda, ou mesmo em relação às escolhas de seus representantes políticos, que sempre apresentam plataformas sobre o quê, quanto e como gastar do orçamento público. Toda decisão que envolve benefícios e custos é, por natureza, uma decisão econômica. Considero que a difusão de tal conhecimento possa ser realizada por meio da introdução do tema no ensino médio, uma vez que o ensino superior, a depender da carreira escolhida, não necessariamente colocará o estudante/cidadão em contato com o assunto economia/finanças.

SP 2) Esse projeto pode trazer alguma contribuição efetiva para a melhoria do ensino? Pode, por exemplo, contribuir para melhorar os índices de aprendizagem que têm se mostrado tão baixos? Você acha que um ensino mais em cima do dia a dia pode interessar mais o aluno do que apenas teoria?

Pessoalmente, acredito que possibilitar aos estudantes um contato com temas de economia e finanças, que estão na mídia e na sua vida cotidiana, pode trazer ganhos em termos de aprendizagem mesmo para outras áreas, uma vez que lidar com tais assuntos pode levá-los a desenvolver raciocínios lógicos abstratos que exigem não só a compreensão textual dos problemas, mas também ao uso efetivo da lógica e dos instrumentos da matemática. Mas tudo isso depende, claro, da metodologia didática utilizada. E este é meu principal ponto em relação à iniciativa do ENEF – eu não conheço o material didático que foi desenvolvido e será aplicado no projeto-piloto no semestre que vem, em centenas de escolas públicas. Suponho que tenha sido desenvolvido para se integrar ao conteúdo curricular, uma vez que a estrutura do ensino médio brasileiro é bastante rígida e sobrecarregada em termos de carga horária em comparação com o modelo americano, por exemplo (o que não garante, obviamente, que tenhamos resultados relevantes em termos de qualidade do ensino). O que não pode acontecer é esperar que o processo de ensino-aprendizagem de temas de economia e finanças possa ser alcançado de forma efetiva sem um instrumento didático adequado. Nesse sentido, eu tenho desenvolvido projeto de extensão universitária que tem como objetivo utilizar jogos e simulações, derivados dos avanços nas últimas décadas da área de economia experimental, como instrumento didático.

SP 3) Você tem uma experiência com o ensino de educação financeira. Conte um pouco de como e por que essa idéia surgiu, como foi desenvolvido o projeto e como será testado.

Ao longo do ano de 2009, desenvolvi um Projeto de Extensão financiado pelo Fundo de Cultura e Extensão da USP, em parceria com minha colega de departamento, Profa. Natália Batista, com o objetivo de introduzir conceitos iniciais de economia por meio de uma metodologia inovadora a um público importante e normalmente sem acesso a tal conhecimento, os alunos do ensino médio de 10 escolas públicas de Ribeirão Preto, cerca de 300 alunos participaram da atividade.

A escolha do público alvo deveu-se à percepção de que temas econômicos e financeiros vêm se inserindo cada vez mais cedo na vida dos jovens, e que para os alunos da rede pública de ensino a disponibilização destas informações talvez não ocorra de maneira espontânea. Devido às características deste público, a transmissão das noções básicas de economia foi realizada por meio da implementação de jogos em que a fixação do conceito decorre da participação do aluno em um jogo (experimento) realizado em sala de aula. Nesta situação, os alunos atuam como agentes que tomam decisões em ambientes o mais próximo possível daquele encontrado na sua vida prática, facilitando a compreensão abrangente e profunda por parte do aluno. A inovação do nosso projeto em relação às iniciativas que também se direcionam ao publico leigo está, então, na metodologia didática.

O jogo (ou experimento) proposto naquele projeto e aplicado às turmas de ensino médio visitadas trata de um aspecto fundamental para compreensão do funcionamento dos mercados financeiros, dentre outros mercados, o modelo de oferta e demanda em mercados competitivos. O objetivo é que os alunos descubram o modelo de oferta e demanda por si próprios e possam perceber que um grande número de participantes não é necessário para obter resultados eficientes e competitivos, como propõe a teoria econômica. Um experimento de mercado pode ser usado para ilustrar uma variedade de outros fatores como, por exemplo, os efeitos do controle de preços e alterações na oferta e demanda sobre a formação do preço de mercado.

Como resultado direto da aplicação deste projeto, os quase 300 estudantes de ensino médio de escolas públicas de Ribeirão Preto adquiriram capacidades cognitivas referentes a temas econômicos, particularmente o funcionamento do mercado e domínio dos fatores relevantes ao processo de alocação de recursos, envolvidos tanto nas decisões de consumo quanto nas de produção.

Acredito que experimentos eficientes são capazes de induzir a aprendizagem em um nível mais profundo, em que se pode, a partir dos resultados, apontar a utilidade da abstração apresentada na teoria econômica. É possível projetar e colocar em prática experiências pedagógicas eficientes com apoios simples, sem a necessidade de computadores ou laboratórios próprios, e que são facilmente reproduzíveis em sala de aula – o melhor uso dos experimentos, jogos ou simulações, é o de ilustrar concretamente importantes idéias fundamentais que requerem uma profunda compreensão ou conceitos teóricos abstratos. Há vários tipos de experimentos que podem facilmente ser desenvolvidos nas salas de aula: decisões individuais, leilões e negociações estratégicas, mercados competitivos ou monopolistas, decisão de poupar e de como investir a poupanças entre os ativos financeiros disponíveis, determinação do produto e do emprego na macroeconomia, relação entre taxa de juros e inflação, entre moeda e inflação, etc… disponíveis em geral nas seguintes fontes: Journal of Economic Education, Economic Inquiry, Journal of Economic Perspectives e Classroom Expernomics.

Atualmente, desenvolvemos um projeto em parceria com colegas da Universidade Mackenzie para visitar pelo menos 40 escolas, entre públicas e privadas, na cidade de São Paulo, e introduzir, por meio de jogos e simulações, noções não só de equilíbrio de mercado, mas também de processo eleitoral e decisão de votar (muito pertinente em ano eleitoral), de como as pessoas, firmas e governo interagem em diferentes mercados através da troca de bens e serviços (macroeconomia) e de como o banco central utiliza diferentes ferramentas de política monetária para ajustar a taxa de juros e seus efeitos sobre o produto e inflação.



Cultura Econômica, Mercados Financeiros

Especulador também é gente!

 

O título deste post é, obviamente, uma brincadeira com uma idéia preconceituosa contra estes importantes agentes dos mercados financeiros: os especuladores. Talvez resquícios da condenação católica da usura. Mas o certo é que as pessoas, em geral por desinformação, torcem os narizes para os especuladores.

 Os mercados financeiros, em seus diversos segmentos, propiciam que os agentes que obtêm renda maior que seu consumo, num período de tempo, e portanto possuem capacidade de poupar, emprestem para aqueles que têm necessidades de recursos maiores que suas disponibilidades, sejam famílias, para financiar o seu consumo presente, sejam empresas, para financiar seus investimentos produtivos (aqueles destinados a produzir novos bens e serviços). Isto, claro, mediante uma compensação para os poupadores e um custo para os emprestadores, os juros. O governo pode estar em qualquer lado desses mercados, o nosso em geral está do lado dos emprestadores…

Vamos tratar mais de perto de um segmento específico dos mercados financeiros, o mercado de capitais, destinado a poupadores e investidores que têm, em geral, objetivos de realizar operações financeiras de longo prazo, como a emissão de ações e de títulos de dívida longos. Tais mercados são de elevado risco, exatamente por envolverem prazos maiores, sujeitos, assim, a maiores incertezas quanto ao futuro e por isso mesmo devem propiciar ganhos maiores que em outros mercados de menor risco.  Mais especificamente, quando uma empresa emite um novo lote de ações está vendendo partes da propriedade da empresa para financiar projetos de investimento produtivo (aquele que produz novos bens e serviços, como dissemos acima), quem compra este lote de ações são, inicialmente, instituições financeiras que formam o mercado primário, como bancos de investimento, por exemplo. A seguir, tais ações podem ser negociadas com outros investidores financeiros (os poupadores ditos acima) e começam a ser trocadas de mãos nos mercados secundários, as bolsas de valores. Tais operações visam obter ganhos com o diferencial de preço de compra e de venda, que reflete a avaliação por parte dos agentes sobre a lucratividade futura da empresa em questão e sobre pagamentos de dividendos futuros, desempenhando um importante papel na mensuração do valor dessas empresas.

 E onde entra o especulador?? Exatamente e principalmente neste momento.  Diferentemente do poupador, ou “investidor financeiro”, que dedica seus esforços de tempo e trabalho para gerar poupança a partir de outras atividades econômicas e busca nos mercados acionários uma rentabilidade média adequada ao risco, e que, portanto, está preocupado com a tendência geral ao longo do tempo do seu retorno, o especulador atua de forma dinâmica em tais mercados, buscando oportunidades de ganhos, às vezes no mesmo dia, ou em poucos dias, ao comprar um papel (uma ação) a um preço que considera baixo e vendê-lo quando o preço se elevar. Com isso o especulador propicia tanto liquidez, ou seja, volume de transações, ao mercado acionário quanto realiza a importante tarefa de fazer a contraparte em termos de expectativas. Explico: suponha que uma parte dos agentes acredite que o preço de uma ação vai cair e então façam ofertas de venda de tais ações no mercado, se não houver agentes que apostem na elevação no preço mais adiante, o preço cai cada vez mais (isso acontece mesmo, nos momentos de crise!), porém os especuladores podem assumir essa posição de compradores na baixa e vendedores na alta. Isso requer que os esforços de tempo e de trabalho de tais agentes, os especuladores, estejam voltados principalmente para esta atividade: obter ganhos financeiros. Um atividade tão honesta e importante quanto tantas outras… Requer também conhecimento teórico e prático de finanças, do funcionamento da economia, de estatística, de contabilidade, de história, etc.,  além de características de aptidão pessoal (trabalhar bem sob extrema pressão, por exemplo).

Será que se pode ensinar a alguém “a atividade de especulação?”. Tema para o próximo post

 

 

Cultura Econômica, Diversão & Arte, Livros... Livros...

Lição de empreendedorismo: crise x oportunidades

   
 
 
“Economia Veneziana em crise” – Este poderia ser o título deste post, estivéssemos nós nos idos das primeiras décadas do século XVII. Caos à vista, ricas famílias venezianas de mercadores enfrentando queda na demanda por seus produtos, pessoas sem ocupações, imóveis com preços em queda… (as características das recessões não mudam tanto ao longo do tempo). 
Em busca de diversificação de seus investimentos, tais famílias passaram supostamente a investir seu capital excedente no ramo da locação de teatros, em que as companhias de saltimbancos, formadas por excelentes cantores e cantoras oriundos da escola romana de música sacra, podiam apresentar em Veneza suas montagens de comédias ou tragédias faladas. “Daí para a ópera passar dos palácios ao teatro foi apenas um pulo”*. 
O Teatro San Cassiano, empreendimento da família Tron, foi o primeiro a cobrar entradas para os espetáculos de ópera e seus gestores e artistas, Benedetto Ferrari (1603-1681) e Francisco Manelli (1594-1667), transformaram a ópera em um verdadeiro espetáculo multimídia, com cenários e figurinos de alto luxo, com engenhosas invenções que permitiam recriar em palco as emoções de grandes batalhas mitológicas, a fúria de deuses que desciam do Olimpo em belas carruagens voadoras, aventuras no mar, no ar e na terra!! O investimento realizado na qualidade visual e vocal do espetáculo, bem como o cuidado em adequá-lo ao gosto popular, tinha por objetivo minimizar os riscos de tal inovador empreendimento, num momento em que a Ciência Econômica nem pensava em nascer – diga-se de passagem… 

Empreender é, antes de tudo, ousar, enfrentar desafios para os quais, em geral, não há condições adequadas de análise ou de previsão. Requer coragem e uma boa dose de jogo de cintura para lidar com situações inusitadas, com contratempos, equívocos e riscos de toda sorte. 

Sob as boas práticas de finanças, é aconselhável que o investidor-empreendedor procure formular o melhor conjunto de informações possível para sua tomada de decisão… Mas, sendo assim, como explicar a ação de homens e mulheres que se lançaram quase às escuras numa nova atividade, na criação de um produto ou serviço totalmente diferentes, como estes empreendedores que popularizaram a ópera na Itália do século XVII, contribuindo para uma verdadeira transformação social?? 

Um “viva!!” para o misterioso “espírito animal” keynesiano, que poderia ter me levado a escolher para este mesmo post, lá no início do século XVII, o título:

“Nasce o mais belo espetáculo do mundo!”

 

* Para saber mais sobre esse e muitos outros epísódios da história da ópera, recomendo a leitura do delicioso e preciso livro de Sérgio Casoy, “A Invenção da Ópera ou A História de um Engano Florentino“, Editora Algol, 2007. Um primor!! Divertida leitura tanto para os iniciados e amantes da ópera, quanto para os novatos!

Cultura Econômica, Economia, Ensinando Economia

Estudar Economia

 

Como esta é a primeira semana de aulas, achei apropriado escrever um post para um público específico: estudantes de Economia.

Resgato, inicialmente, um pouco da minha memória afetiva como estudante de economia… Escolhi estudar economia ainda no ensino médio, pasmem: por conta do curso de Educação Moral e Cívica! Um verdadeiro resquício da ditadura, que, para minha felicidade, tinha como professora uma adorável e carismática estudande de mestrado de antropologia da PUC de São Paulo… Bendita incongruência do sistema! Esta criatura, de cuja imagem peculiar ainda me lembro bem (meio bicho-grilo, fins dos anos oitenta), usava as aulas de Educação Moral e Cívica para realizar leituras dirigidas e discussões sobre diversos temas sociais, filosóficos e econômicos – todos a partir de um material didático chamado “Coleção Primeiros Passos”. Num dos títulos da coleção, que devia ser “O que é Capitalismo”, aproximei-me pela primeira vez de uma leitura da sociedade, sob o enfoque econômico, a partir da visão de Karl Marx. Fiquei maravilhada! Aqueles assuntos todos me encantavam e a mídia da época, como a de hoje, destacava muito os temas econômicos: só falava do “dragão da inflação” (eu tinha medo… rs), da recessão, das tais “bolsas” que subiam e caiam, do câmbio e dos déficits externos e fiscais, do desemprego, da dívida… Parecia um grande desafio entender essas coisas todas… e era… e é!

Então, tentando entender melhor do que se tratava estudar economia (não havia nenhum economista na família, nem internet… rs), busquei informações no cursinho, li também um livro chamado “Aprender Economia”, do Paul Singer (ainda o tenho, todo grifado… rs), e quando me dei conta de que na segunda fase do vestibular  era preciso saber bem humanas e exatas, aí não tive mais dúvidas! Sempre tive mais aptidão para exatas, mas também não queria deixar de estudar e aprender humanidades… Economia caiu como uma luva!

Estudar Economia é isso… essa mistura de exatas e de humanas: conhecer a história e o momento presente, com suas complexas interrelações entre a esfera econômica, social, política e filosófica (o Homem é um bicho complicado…), e ser capaz de reconhecer as principais relações na esfera econômica, abstraí-las do todo complexo, por meio de teorias e modelos bastante abstratos e, muitas vezes, beneficiados pelo uso da linguagem universal e simples da matemática e, assim, compreender, estabelecer, mensurar e analisar relações de causa e efeito.

Com isso, objetiva-se compreender a organização social em sua profunda interrelação com o modo de produção de bens e serviços, ou seja: com a maneira pela qual o Homem, ao longo do tempo, tentou solucionar o problema de escolher o que produzir, como produzir e para quem produzir, dentre os diversos fins que podem ser dados aos recursos disponíveis, que são escassos… (Eis a definição clássica da Ciência Econômica).

É isso! Bom início de aulas a todos!

 

 

 

 

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Inaugurando

 

Finalmente decidi, com a firmeza de convicção necessária, iniciar um blog – uma decisão parecida com aquelas de início de ano… Uma decisão difícil, preciso dizer, para quem ter por hábito e por força de profissão o cuidado com a língua pátria segundo a norma culta, o burilar de um texto por semanas, às vezes meses…

Isto aqui exige rapidez, despojamento, desapego e, principalmente, coragem para expor erros de toda sorte, humildade para corrigi-los quando descobertos ou apontados pelos leitores, ou mesmo um certo desleixo em deixá-los lá onde estão ainda que sabidos. Grande desafio!

Não pretendo trazer para este espaço discussões extremamente técnicas e/ou complexas em minha área de atuação, a Economia – para isso faço uso de outros fóruns. Ao contrário, quero aqui aperfeiçoar minha capacidade de falar sobre economia numa linguagem simples e acessível, até mesmo informal, permitindo-me emitir avaliações normativas – o que procuro não fazer em sala de aula – sobre os diversos temas tratados.

No entanto, Economia não é minha única paixão – sou uma pessoa de múltiplos interesses; o que torna quase impossível circunscrever a temática deste blog… Por isso o título, mais que adequado: Random Walk (Passeio Aleatório) –  um Passeio Aleatório por assuntos, notícias, temas que considero merecerem algum comentário, às vezes técnico, racional, às vezes amador, subjetivo…

Você saberá lendo!

Bem-vindos!!