Mercados Financeiros, Política Monetária

Política monetária, mercados e independência do banco central

 

O mote desse post foram os comentários dos alunos de Economia Monetária aos textos sobre as taxas de juros do Fed preparados pelos grupos das turmas ECEC (aqui) e Economia e (aqui) – foi curioso notar a surpresa quase geral com o fato de o Federal Reserve System ser composto por bancos privados!! E iniciou-se uma discussão sobre independência x estatização x privatização do Fed, com uma boa dose de avaliação normativa. Então, vamos pontuar algumas coisas importantes:

1. Análise positiva x normativa: estou sempre chamando a atenção dos alunos para esse fato – você pode ter o conjunto de valores que desejar e, portanto, formar sua opinião pessoal sobre quaisquer assuntos, isso não é ciência, é conversa de botequim (talvez igualmente ou até mais relevante… rs); ciência requer a busca de máxima isenção para a análise positiva, usando argumentos lógicos/teorias/conceitos e, principalmente, fatos e evidências empíricas. Em síntese, cheque as fontes, avalie a filiação téorica dos analistas/pesquisadores (é preciso começar a treinar esse filtro) e também ideológica – principalmente em época de eleição o que não falta é discurso ideológico travestido de ciência.

2. Em qualquer país de economia mista (economias de mercado, com processos políticos democráticos, em que reconhecidamente há atividades que devem ser desempenhadas pelo governo – quando há falhas de mercado, preferencialmente via regulação, buscando a máxima eficiência econômica no uso dos resursos escassos, ou por questões de justiça social, de acordo com os valores da sociedade – sem desconsiderar também as falhas de governo – informação incompleta, comportamento rent-seeking, corrupção…) a ação das autoridades monetárias ocorre em MERCADOS de títulos e/ou de reservas – ou seja pressupõe instituições financeiras privadas e é por meio delas que as ações de política monetária se realizam – alguns de vocês obervaram isso nos comentários. É por esse motivo que passamos algumas aulas entendendo a demanda por ativos (títulos e moeda, por exemplo) por meio da teoria do portfólio! Em economias de mercado, a taxa de juros NÃO está sob controle total do governo, nem pode ser fixada por decreto!!! Se você defende isso, então é bom saber que você também defende uma outra organização para a economia, que não a de mercado.

3. Isso significa que o Fed ou qualquer outro banco central nesses moldes seja privado?? Claro que não! Notem a composição do Sistema, o Conselho Administrativo é composto por 7 membros todos indicados pelo presidente dos EUA.  O Sistema é, na verdade, uma estrutura de regulação e controle a fim de evitar que as falhas de mercados comuns em mercados financeiros promovam uma alocação de recursos inadequada (estudaremos um pouco desse assunto na semana seguinte). Claro que se abre aí a possibilidade de conflitos de interesse  e seus problemas decorrentes, mas a teoria econômica também evoluiu nesse sentido, como a nova economia institucional, e oferece instrumentos de análise interessentes para o debate – é bom conhecê-los bem antes de sair defendendo posições, se você pretende ser um economista.

4. Por fim, sobre o debate a respeito da independência do banco central, embora esse não seja tema central de minha pesquisa, acompanho a literatura (mainstream) e considero o texto abaixo uma boa síntese com evidências de que a independência de instrumento seja mais importante que a independência jurídica, ao menos para economias com menos riscos institucionais.

TAYLOR, J. B. The Effectiveness of Central Bank Independence vs. Policy Rules. Business Economics, v. 48, n. 3, p. 155–162, jul. 2013.

É isso! Outras dúvidas, deixem comentários e finalizamos em sala de aula, ok?!

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Mercados Financeiros, Política Monetária

ECO B – Taxas de juros Zona Euro e Inglaterra – definições e dados

 

“A Taxa do Banco Central Europeu (BCE) e a Euribor

Desde 1999, o BCE ocupa-se com a política monetária da zona do euro. Para tanto, ele utiliza como um dos instrumentos a taxa de juros. Essa taxa de juros também é conhecida como juros referenciais ou juros do refinanciamento. Podemos intuir o porquê deste último nome se entendermos que a taxa de juros do BCE representa o valor que os demais bancos devem pagar ao BCE quando tomam dinheiro emprestado com ele.
Esse recurso, de tomar empréstimo com o BCE, é utilizado, geralmente, quando os demais bancos passam por escassez de liquidez.

Sobre os efeitos dos juros referenciais: se ele crescer ou diminuir, o BCE estará influenciando de modo indireto o nível das taxas aplicadas pelos bancos em transações interbancárias, hipotecas, empréstimos a empresas e empréstimos para consumo.

Por sua vez, a Euro Interbank Offered Rate (Euribor), Administrada pela Federação Europeia de Bancos, é uma taxa diária de referência montada a partir da média dos valores esperados de juros que os bancos da Zona do Euro teriam que pagar se resolverem tomar dinheiro emprestado de outros bancos.

Cotada somente em Euro, ela é calculada a partir dos valores esperados das taxas de juros interbancários que 44 bancos de países da Zona do Euro enviam diariamente à FEB. A partir disso, os 15% mais altos e mais baixos são descartados e do restante é feito uma média que representa a taxa diária.

Taxas de Juros na Inglaterra e Libor

No caso da Inglaterra, as decisões a respeito das taxas de juros são tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Monetary Policy Committee, em inglês). A taxa de juros oficial é fixada pelo Banco da Inglaterra, sendo aplicada ao mercado de operações aberto do Banco da Inglaterra junto aos bancos e outras entidades.

O mecanismo pelo qual é definida a taxa de juros tem como objetivo principal mudar a taxa praticada na economia, controlando a inflação, e é determinada da seguinte maneira: o Banco da Inglaterra fixa uma taxa de juros na qual ele empresta para as instituições financeiras. Assim, essa taxa afeta todas as outras taxas de juros fixadas pelos bancos comerciais e por outras instituições.

Já a London Interbank Offered Rate (Libor) é administrada pela British Bankers Association e divulgada diariamente às 11:30 a.m. (Horário de Londres) pela Thomson Reuters. Diferente da Euribor, a Libor é cotada em 10 diferentes moedas.

A taxa em questão possui objetivo similar (Informar o valor da taxa de juros que os bancos da capital inglesa esperariam pagar a outros bancos se desejassem tomar emprestado) ao da Zona do Euro, porém a pesquisa para seu cálculo é configurada somente com os principais bancos situados em Londres. Para o cálculo da Libor em dólares (USD Libor), são pesquisados os valores esperados por 18 dos principais bancos mundiais, como HSBC, JP Morgan, Rabobank, Barclays, Citibank e etc.

Ao saber os valores dos juros interbancários esperados, a USD Libor é calculada descartando as 4 respostas mais altas e as 4 mais baixas, e fazendo a média das outras 10.

Alguns Dados

Abaixo apresentamos um gráfico que mostra o desenvolvimento das taxas Euribor, Libor e do Banco Central Europeu.

 eco B 1

Fonte: Produção própria a partir de dados de European Central Bank e European Commission

Além disso, no gráfico abaixo, apresentamos a média mensal das taxas de juros de longo prazo de títulos emitidos pelo governo de alguns países da zona do Euro e negociados nos mercados secundários.

eco B 2

 Fonte: Produção própria com base nos dados presentes em http://pt.global-rates.com/ (Observação: dos sete tipos existentes das taxas Líbor e Euríbor, o gráfico apresenta a taxa para o período de 12 meses)

Devido ao tamanho do post proposto, deixamos a discussão dos gráficos para os colegas de sala. Além disso, disponibilizamos uma matéria sobre a queda da Euribor e o Banco Central Europeu para estimular a discussão: Queda Euribor

 

Fontes :

http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/detalhe/taxas_euribor_registam_maior_queda_em_16_meses_apos_corte_de_juros_surpresa_do_bce.html

http://pt.global-rates.com/

https://www.ecb.europa.eu/ecb/html/index.pt.html “

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Cultura Econômica, Ensinando Economia

O Economista de amanhã

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É você, estudante de economia de hoje. Você já pensou sobre o tipo de educação que você está recebendo? Eu pesquiso, estudo e ensino mainstream economics e sempre sou clara sobre com quais “óculos” vamos olhar para o mundo em aula, e sou favorável ao pluralismo de ideias, acredito que seja talvez a nossa mais importante tarefa contribuir para  formar jovens com aguçado senso crítico. Por isso convido meus alunos, como primeira atividade interativa das turmas de Economia Monetária, a tomar o bonde da atualidade – assistam ao vídeo, pesquisem os links indicados, indiquem outros, o que mais há no mundo nesse mesmo sentido?? Você já tinha ouvido falar sobre esse movimento internacional de estudantes? O que vocês, Uspianos, podem fazer para contribuir? Há algo parecido no Brasil (há uma fala sobre isso no vídeo, quem descobre quem já está envolvido, que faculdades?)? Já tinha ouvido falar sobre Wendy Carlin (tem um post em que falo do excelente livro de macro dela e Soskice aqui)?

“The master economist… must be a mathematician, historian, statesman and a philosopher – in some degree” (J.M. Keynes)

Preparados? Vamos lá:

O vídeo Oikonomos – Transforming Economic Education

Institute for New Economic Thinking.

Cambridge Society for Economic Pluralism,

Skidelsky sobre o tema, num post em Project Syndicat.

Matéria no Financial Times.

Aqui, uma síntese bacana no The Curriculum in Open-access Resources in Economics (CORE) project: Saving the baby, not the bathwater

Agora é com vocês!!