Inflação, Mercados Financeiros, Política Monetária

A-Ecec: O CURIOSO CASO DAS TAXAS DE JUROS BRASILEIRAS

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” A taxa de juros nominal, aquela prometida como remuneração pelo empréstimo de recursos, pode ser fragmentada em duas partes: a taxa de juros real – que resultará na variação do poder de compra – e a taxa de inflação esperada. Nesse sentido, para uma dada taxa de juros nominal, é preciso ter em mente que a taxa de juros real será afetada por variações na expectativa de inflação. Por exemplo, se o indivíduo deseja ter um incremento em seu poder de compra de 1% no ano seguinte, e acredita que haverá um aumento de 5% no nível geral de preços, ele abrirá mão de seu consumo presente somente se lhe for garantido um juros nominal de pelo menos 6%.

No mais, a relação positiva entre taxa de juros nominal e inflação esperada é reforçada pela análise de oferta e demanda no mercado de títulos, em que um aumento na expectativa de inflação incentiva os emissores de títulos a ofertar mais. Isso ocorre porque o custo real da dívida será menor na ótica desses agentes, uma vez que eles continuarão remunerando aqueles que lhe emprestaram recursos a uma mesma taxa nominal, mas o nível geral de preços de toda a economia aumentou. Simultaneamente, os compradores reagem diminuindo sua demanda por títulos, já que sua remuneração caiu. Em suma, uma elevação na expectativa de inflação gera, no longo prazo, um aumento na taxa nominal de juros. Esse fenômeno é chamado de Efeito Fisher, em homenagem ao economista norteamericano Irving Fisher (1867-1947), o primeiro a formular teoria econômica relacionando as variáveis taxa de juros e inflação esperada.

De fato, como mostra o gráfico da Figura 1: “Expected Inflation and Interest Rates (Three-Month Treasury Bills), 1953-2011”, que ilustra o Efeito Fisher para o caso estadounidense, as variáveis expectativa de inflação e taxa nominal de juros aparentam ser positivamente relacionadas.

A-Ecec-G 1

Contudo, para o caso brasileiro, os dados de taxa de juros nominal e expectativa de inflação, coletados no IPEAdata, para o período de 2010 a 2016 não apresentam a mesma relação, como pode ser observado no gráfico superior da Figura 2: “Inflação Esperada, Taxa de Juros e Déficit Público, 2010-2016”.

A-Ecec-G 2

Fica evidente que há um descasamento entre o comportamento da taxa de inflação esperada e a taxa nominal de juros. Em meados de 2011 a 2013, quando há uma constância na inflação esperada, há também uma queda na taxa SELIC – taxa básica de juros brasileira. Isso resulta, em síntese, numa diminuição na taxa real de juros do período. Em seguida, é possível observar, de 2013 a 2016, um contínuo crescimento na inflação esperada e um aumento na taxa de juros nominal. Essa distância entre as curvas resulta numa reversão da taxa de juros real frente ao período passado, que dessa vez se eleva.

Por fim, de acordo com Moreira (2006), uma possível explicação para o descasamento entre a taxa de juros nominal e a expectativa de inflação é a evolução da dívida pública em relação ao PIB. O governo brasileiro pode escolher se financiar emitindo títulos públicos, aumentando assim a oferta de títulos e, consequentemente, as taxas de juros nominal. Assim, está representada no gráfico inferior da Figura 2 a razão dívida-PIB brasileira. Esta dívida considera apenas aquela contraída pela emissão de títulos, que são títulos atrelados à própria SELIC. Observa-se que, de 2011 a 2014, a razão dívida/PIB diminui e a taxa de juros se aproxima da expectativa de inflação. Já de 2014 a 2016, a dívida/PIB aumenta e a taxa de juros se distancia da expectativa de inflação. Logo, o caso brasileiro se difere daquele demonstrado no livro texto de Mishkin (2013) e uma possível explicação para esse fenômeno é o aumento da oferta de títulos pelo governo brasileiro.

REFERÊNCIAS
MISHKIN, Frederic S. The economics of money, banking, and financial markets. Pearson education, 2013.

 

MOREIRA, Edison M. O regime de metas de inflação, a taxa de juros e a relação dívidda pública/PIB. Indicadores Econômicos FEE, v. 34, n. 2, p. 13-20, 2006. “

 

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