Cultura Econômica, Economia Matemática, Ensinando Economia, Experiências no pós-doc

“Na minha economia”…

 

Tenho assistido às mais diversas demonstrações de criatividade por aqui. Os seminários e os colóquios rendem muito, e minha conclusão é a seguinte: a criatividade é tanta que a cada vez que ouço a expressão “na minha economia” se, de fato, houvesse ali uma tentativa de representar os fatos estilizados de uma economia real, teríamos milhares de economias no planeta terra! E cada uma mais esquisita que a outra!

Claro, eu entendo perfeitamente o papel do modelo econômico e advogo em favor, inclusive, de seu uso, uma vez que seria impossível representar toda a complexidade das relações econômicas reais. Pois bem, o que fazer então? Aqui vai uma sequência de passos simples para construir a “sua economia” e, por meio dela, compreender um pouco melhor a economia de todos nós:

  1. Comece pensando em um problema real, de interesse de economias com características parecidas, ou (o que é raro) de interesse de todas as economias (se almejar um estudar um problema geral assim, e conseguir, terá um belo artigo científico no final!).
  2. A motivação da sua pesquisa é o ponto mais importante, precisa ser muito clara e associada aos fatos estilizados relevantes (leia-se, história), produzidos por você por meio da análise dos dados ou encontrados na literatura;
  3. Estabeleça elos claros entre a sua proposta de abordagem do problema e as encontradas na literatura relevante. Não é necessário revisar e relacionar sua pesquisa com tudo que já foi produzido, isso seria mesmo praticamente impossível; porém, a seleção do que seja relevante é uma “fina arte” e mostrará aos pares quão especialista no assunto você é;
  4.  “Elos claros” significam duas coisas: em que aspectos sua abordagem é igual, em que se diferencia da literatura;
  5. Use, sim, a linguagem matemática e escolha os instrumentos adequados ao seu propósito, justificando-os brevemente, se fugirem do padrão. É a dinâmica do seu problema que te interessa? Ou são os equilíbrios de longo prazo? Você necessita de uma estrutura estocástica, ou seja, choques aleatórios te interessam, ou determinista? Para cada possibilidade, a matemática te oferece um possível instrumento de análise. Porém, conte também heuristicamente, com palavras, a estrutura básica que seu modelo matemático sintetiza, ressaltando, de novo, os aspectos em que você inova;

O que mais tem me preocupado é constatar como os colegas e estudantes por aqui facilmente se fascinam pelo instrumento, e esquecem os fins. Ou seja, invertem a ordenação acima e começam pelo modelo matemático que, por fim, não conseguem convencer que sirva para lançar luzes sobre problemas concretos… Ainda bem que há muitos e competentes colegas que insistem nas perguntas básicas: “ok, na ‘sua economia’ as coisas acontecem do jeito que você diz, mas em que circunstâncias, no mundo real, esse resultado seria factível?”. E pronto. Como diz uma amiga, “acabou história, morreu vitória”.

Econometria, Ensinando Economia, Experiências no pós-doc

Observar, observar e observar.

 

Esses são os três mandamentos do bom econometrista. Sempre que dou aulas de econometria (mas não só) faço questão de usar essa brincadeira para que os estudantes aprendam que é preciso observar os dados, analisar gráficos e estatísticas básicas (sim, é por isso também que você estuda medidas de posição, de variação e de associação no seu primeiro curso de estatística) antes de sair apertando botões de poderosos softwares econométricos.

Pergunto aos alunos “Qual o primeiro mandamento do bom econometrista?”. Faz-se o silêncio… Eu respondo “OBSERVAR”. Pergunto em seguida, “E o segundo?” – alguns arriscam piadinhas típicas “torturar ou martelar os dados, para que eles digam o que você quer saber”. Eu aproveito a piadinha para informá-los que, além de péssima econometria, isso é ou ignorância ou má fé, ou ambas. Respondo, com bom-humor: “OBSERVAR!”. E, então obtenho de todos a resposta correta para o terceiro mandamento: “OBSERVAR!”.

E por que isso? Porque a tentação de sair apertando botão é grande, formular e estimar complexos modelos dinâmicos com restrições de curto e/ou longo prazos, e obter resultados em segundos! Que maravilha!! Dá uma sensação de poder e de conhecimento… Mas, como eu também costumo dizer, com softwares as coisas funcionam assim: entram dados errados ou sem sentido, saem resultados incorretos e sem sentido, por mais que os testes estatísticos possam mostrar resultados significantes.

Quantas vezes já recebi estudantes de mestrado em minha sala pedindo ajuda para analisar resultados de testes que eram completamente inesperados ou inconsistentes com os fatos estilizados? Várias. Em muitos dos casos, os problemas estavam na base de dados… problemas que teriam sido evitados se o estudante tivesse OBSERVADO seu próprio banco de dados. Outras vezes, os famigerados testes de tendência e de especificação de modelos multivariados, gerando resultados estapafúrdios, por que? Porque o aprendiz propõem especificações, às vezes, opostas àquelas que a simples observação de gráficos temporais e de dispersão entre as variáveis parecem indicar. Em se tratando de séries temporais principalmente, OBSERVAR é um requisito fundamental para não fazer besteira ou achar que está redescobrindo a roda.

Este tema me ocorreu porque, assistindo a apresentações de trabalhos em andamento dos estudantes de PhD aqui de Columbia, eu me dei conta de que o problema é comum aqui também (então, meus queridos alunos, vocês não estão sós!). Para ilustrar, descrevo um caso: o estudante leu um artigo que mostrava evidências empíricas de efeitos diferentes da política monetária sobre o emprego de trabalhadores qualificados e não qualificados na Turquia, por traz desses efeitos estudados há uma literatura de economia do trabalho. Então, ele, se achando o “golden boy”, propõe construir uma ponte para interligar a teoria de economia monetária e a de trabalho… Ok, pode ser realmente que essa evidência da Turquia seja comum a outros países… mas pode ser que seja associada às características específicas do mercado de trabalho daquela economia… O que se esperaria, antes de mais nada, seria uma análise básica, simples, da relação entre política monetária e o emprego (ou desemprego) de trabalhadores qualificados e não-qualificados para um conjunto de países, ou pelo menos para os EUA, economia que o estudante pretendia analisar. E esta foi, de fato, a primeira pergunta que os professores da casa fizeram ao sujeito: “mas… cadê os dados ilustrando a possibilidade de ocorrência desses efeitos?? Mostre ao menos um diagrama de dispersão para motivar a discussão.” Pasmem: o estudante não tinha o banco de dados com desagregação por qualificação. Ainda assim, fez um monte de conjecturas teóricas e estimou um modelo multivariado pros EUA com os dados tradicionais de emprego agregado, completamente inútil para os seus próprios propósitos… Impressionante.

Depois que os três primeiros mandamentos estiverem bastante bem compreendidos e praticados, os três seguintes são, claro, TESTAR, TESTAR e TESTAR, como já recomendava explicitamente David Hendry em 1980. Mas isso fica para um próximo post.


Experiências no pós-doc

What’s the dollar name in Brazil?

 

Hã?… What do you mean?

Com cara de quem não estava entendo lhufas, foi com essa outra pergunta que respondi à primeira. Qual o nome do dólar no Brasil? Como assim, cara-pálida?

Depois daqueles segundos em que me senti num outro planeta, compreendi a pergunta, simples, de uma americana de nível educacional médio: a atendente do banco em que fui abrir minha conta aqui (não vou dizer nomes nem no banco nem da simpática moça, por uma questão óbvia). Ela foi super solicita, me atendeu muito bem, abriu a conta e me passou as informações com clareza e até me deu dicas de restaurantes brasileiros na cidade… Mas, em meio a essa simpatia toda, ela me revelou um fato que me parece universal para o americano médio: eles acham que o resto do mundo usa o dólar como moeda, apenas mudando o nome… No fundo, no fundo, não estão totalmente errados… mas o ponto aqui é tratar moeda e dólar como sinônimos! A simpática atendente queria saber qual era a moeda em circulação no Brasil, o real – e achou graça no nome!

Mais interessante ainda: ela sabia que a moeda na Coréia (do Norte e do Sul) é o won, que na China é o yuan, no Japão, o yen… em nenhum momento ela falou em dólar japonês… E o que isso mostra? Que os orientais estão dominando tudo! Ela tem inúmeros clientes, estudantes de Ph.D. e Visiting Scholars em Columbia, vindos desses países, o que reforça o que já me é óbvio ululante andando pelas ruas do campus.

No mais, semana de Spring Break, sem atividades acadêmicas, além de minhas “horas-bunda” de estudo e pesquisa individuais e longas caminhadas pela cidade…


Diversão & Arte

Restrospectiva Random Walk

 

Um pouco da história desse blog, para fechar o ano. A idéia inicial surgiu em outubro de 2009, incentivos não me faltavam, fã que sempre fui dos blogs do meu querido amigo Cláudio Shikida, dentre outros. Assim é que a data inaugural dele é aquela. Porém, foi a partir de fevereiro de 2010 que as atividades efetivamente se iniciaram, e hoje, temos:

Quase 7.800 visitas; 35 artigos; 15 categorias em que elenco os principais temas e 10 tags, que uso para expressar o “estado de espírito” do post. Os números são modestos para a grandiosidade da internet, mas estão de bom tamanho, tratando-se de um blog de uma professora de economia que não pauta sua conduta pela popularidade junto aos alunos (adoro eufemismos… rs).

Sem contar o acesso de lançamento dos posts, em que eles ficam na página de entrada, os campeões em acessos diretos são:

Ensinando Economia por meio de jogos em sala de aula, com 234 acessos;

PIB, o que é isso mesmo? Com 204 acessos;

Estudar Economia, com 203 acessos.

O post campeão está associado à matéria que ficou na capa do site da USP, sobre projeto de extensão e cultura realizado com uma colega em escolas públicas de Ribeirão Preto, no dia 22 de abril, o que rendeu o dia campeão de visitas: dia 23 de abril, com imbatíveis 130 visitas!

A porta de acesso mais importante para o blog é mesmo minha página acadêmica, em que divulgo cada post novo, e dela vieram 746 visualizações, seguida do twitter (156), o que mostra que o esforço vale a pena, pois o blog tem servido de comunicação adicional com meus próprios pupilos, que são os que acessam regularmente minha página acadêmica.

E, para finalizar, adivinhem qual é o termo de motor de busca que mais levou os internautas ao meu blog?? Random walk, com mais de 200 buscas!

Como este é o último post do ano, aproveito para desejar a todos um 2011 esplendoroso!! Como inspiração, reproduzo um Fernando Pessoa que adoro:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”


Cultura Econômica, Economia, Ensinando Economia

Keynes foi mesmo brilhante!! (Clube de Leitura I)

Iniciei este semestre uma atividade extra-curricular com alguns poucos alunos, interessados em não se tornarem Novo-Keynesianos sem nunca terem lido a “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda“, de John Maynard Keynes – publicado originalmente em 1936, é obra seminal da macroeconomia, como a conhecemos hoje nos livros-texto.

A atividade é um Clube de Leitura, cujo propósito é estimular o estudo de obras clássicas como complemento à formação do estudante de economia. A cada encontro, capítulos daquele livro serão discutidos, sendo um dos membros o responsável por encaminhar a discussão, sob minha mediação e esclarecimentos.

Alguns acham tal atividade totalmente dispensável para a formação do economista. Eu não acho, assim como não acho dispensável ler os clássicos em geral, à medida que se avança no estudo e na compreensão da ciência econômica. Além disso, Keynes dá um show de retórica e, para nós todos, formados na tradição keynesiana, já não é um livro “impossível de ler, difícil” como era para aqueles formados na doutrina clássica e para os que acompanharam todo o debate e se formaram ao longo das décadas seguintes… Hoje, ao contrário, é possível mesmo se divertir com a leitura, verdade principalmente para os estudantes que já passaram por um curso de macroeconomia inicial.

Eu vou destacar aqui alguns trechos que acho brilhantes e sempre me pego sorrindo quando os leio (do Livro I, capítulos 1 a 3*)!

“Os teóricos da escola clássica são comparáveis aos geômetras euclidianos em um mundo não euclidiano, os quais, descobrindo que, na realidade, as linhas aparentemente paralelas se encontram com muita frequencia, as criticam por não se conservarem retas, como único recurso contra as desastrosas interseções que se produzem.” (p. 32-33)

“Aparentemente, depois de Malthus, os economistas profissionais ficaram insensíveis diante da falta de conformidade entre os resultados de sua teoria e dos fatos observados; uma discrepância que o homem comum não deixa de observar, como resultado de uma crescente obstinação em conceder aos economistas a manifestação de respeito que tributa a outros grupos de cientistas cujas conclusões teóricas são confirmadas pela observação, quando aplicadas aos fatos” (p. 43, grifo meu)

Ao longo da releitura que farei da Teoria Geral, deixarei aqui comentários e trechos que me divertem… Você, membro do Clube, pode fazer o mesmo! Deixe seu comentário destacando seu trecho preferido que farei uma compilação num próximo post!!

*KEYNES, J. M.  “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. São Paulo: Atlas, 1982.



Cultura Econômica, Diversão & Arte

Divulgando idéias interessantes

Você conhece TED?

“TED is a small nonprofit devoted to Ideas Worth Spreading. It started out (in 1984) as a conference bringing together people from three worlds: Technology, Entertainment, Design.”

Segue o link: http://www.ted.com/

Recebi esta semana um e-mail de um aluno, Paulo Botta, falando sobre o site, em que se podem encontrar, dentre outras coisas, palestras muito interessantes, organizadas por áreas temáticas. Também como sugestão dele, assisti a esta:

http://www.ted.com/talks/laurie_santos.html

Uma palestra sobre “monkeynomics”, em que se apresentam testes com macacos de comportamentos irracionais humanos associados a escolhas econômicas em situação de risco… E, pasmem, a “monkeynomics” também poderia sofrer uma crise financeira de grandes proporções: parece que a estratégia irracional de tomar mais risco quando já se está em situação ruim (a percepção de risco depende da situação ou estado) tem raízes profundas na psicologia humana, tão antigas que são compartilhadas com nossos colegas macacos… interessante!!

Obrigada, Paulo! Compartilho com os leitores sua dica. Vale checar!!


Cultura Econômica, Econometria, Nível de atividade

Projeções de crescimento do PIB e afins

 

A mídia divulgou ontem as expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, para entender o que é veja o post PIB, o que é isso mesmo?) da Federação de Bancos Brasileira (Febraban) que, segundo sua pesquisa de projeções macroeconômicas de maio, é de 6,3% para 2010 contra 5,5% da pesquisa realizada em março.

O Banco Central do Brasil também faz um levantamento sistemático de expectativas dos agentes dos mercados financeiros, com divulgação semanal, denominado Focus – Relatório de mercado. Na última edição de 07 de maio de 2010, a projeção mediana de crescimento do produto para 2010 passou de 5,60% há quatro semanas daquela data, para 6,26% naquela data.

As projeções em geral, não apenas do PIB, sofrem do mesmo problema. São projeções pontuais. Ninguém divulga o intervalo de confiança de tais projeções. A pergunta é: em se tratando de uma projeção baseada em um suposto modelo estatístico, qual é o intervalo de valores estatisticamente iguais à projeção divulgada? Será que 5,5% é estatisticamente diferente de 6,3%? Ou 5,6%, estatisticamente diferente de 6,26%?

Explico: Vamos tomar a projeção divulgada pela Febraban como exemplo, e supor que a distribuição estatística da variável projetada seja bem aproximada por uma curva gaussiana (Normal) e que o desvio padrão da projeção (o seu risco) seja de 0,5% (o que eu classificaria como o resultado de um excelente modelo de projeção, diga-se de passagem…). Veja, tudo isso é suposto, pois essas informações não são divulgadas. Pois bem, neste caso haveria 95% de chances do valor previsto para o crescimento do PIB estar entre 5,3% e 7,3%, aproximandamente. Caso o desvio padrão fosse de 1%, tal intervalo seria aproximadamente de 4,3% a 8,3%… Ou seja, a menos que a precisão da previsão seja muito grande (desvio padrão da previsão muito pequeno), dizer que o produto crescerá a 5,5% não é diferente, do ponto de vista estatístico, de dizer que crescerá a 6,3%…

Observe que a compreensão do significado dos intervalos de confiança não é nada complexo demais que não possa figurar na mídia em geral. Aliás, tal divulgação é obrigatória em se tratando de pesquisas de intenção de votos em períodos eleitorais…

Pergunto: Será que algum dia as projeções sobre crescimento do PIB e demais variáveis macroeconômicas que abarrotam os meios de comunicação passarão a ser divulgadas de forma relevante, ou seja, com seus respectivos intervalos de confiança??

Diversão & Arte

P.K., meu novo aluno de Macroeconomia!

 

Este espaço também é para a aleatoriedade, e o que pode ser mais inusitado que encontrar em sua lista de presença, num curso de Macroeconomia I, um novo e ilustre aluno??

 Pois foi isso que me aconteceu na semana passada… E aqui está a prova:

 

 Eu não tive dúvidas: reprovei o sujeito por falta!! rsrs…

Foi um dos momentos mais divertidos do semestre, por enquanto! E o mais engraçado é que meus queridos aluninhos de macroeconomia não quiseram revelar o(s) responsável(is) por esta proeza…  Por que será?? 😉

Cultura Econômica, Mercados Financeiros

Especulador também é gente!

 

O título deste post é, obviamente, uma brincadeira com uma idéia preconceituosa contra estes importantes agentes dos mercados financeiros: os especuladores. Talvez resquícios da condenação católica da usura. Mas o certo é que as pessoas, em geral por desinformação, torcem os narizes para os especuladores.

 Os mercados financeiros, em seus diversos segmentos, propiciam que os agentes que obtêm renda maior que seu consumo, num período de tempo, e portanto possuem capacidade de poupar, emprestem para aqueles que têm necessidades de recursos maiores que suas disponibilidades, sejam famílias, para financiar o seu consumo presente, sejam empresas, para financiar seus investimentos produtivos (aqueles destinados a produzir novos bens e serviços). Isto, claro, mediante uma compensação para os poupadores e um custo para os emprestadores, os juros. O governo pode estar em qualquer lado desses mercados, o nosso em geral está do lado dos emprestadores…

Vamos tratar mais de perto de um segmento específico dos mercados financeiros, o mercado de capitais, destinado a poupadores e investidores que têm, em geral, objetivos de realizar operações financeiras de longo prazo, como a emissão de ações e de títulos de dívida longos. Tais mercados são de elevado risco, exatamente por envolverem prazos maiores, sujeitos, assim, a maiores incertezas quanto ao futuro e por isso mesmo devem propiciar ganhos maiores que em outros mercados de menor risco.  Mais especificamente, quando uma empresa emite um novo lote de ações está vendendo partes da propriedade da empresa para financiar projetos de investimento produtivo (aquele que produz novos bens e serviços, como dissemos acima), quem compra este lote de ações são, inicialmente, instituições financeiras que formam o mercado primário, como bancos de investimento, por exemplo. A seguir, tais ações podem ser negociadas com outros investidores financeiros (os poupadores ditos acima) e começam a ser trocadas de mãos nos mercados secundários, as bolsas de valores. Tais operações visam obter ganhos com o diferencial de preço de compra e de venda, que reflete a avaliação por parte dos agentes sobre a lucratividade futura da empresa em questão e sobre pagamentos de dividendos futuros, desempenhando um importante papel na mensuração do valor dessas empresas.

 E onde entra o especulador?? Exatamente e principalmente neste momento.  Diferentemente do poupador, ou “investidor financeiro”, que dedica seus esforços de tempo e trabalho para gerar poupança a partir de outras atividades econômicas e busca nos mercados acionários uma rentabilidade média adequada ao risco, e que, portanto, está preocupado com a tendência geral ao longo do tempo do seu retorno, o especulador atua de forma dinâmica em tais mercados, buscando oportunidades de ganhos, às vezes no mesmo dia, ou em poucos dias, ao comprar um papel (uma ação) a um preço que considera baixo e vendê-lo quando o preço se elevar. Com isso o especulador propicia tanto liquidez, ou seja, volume de transações, ao mercado acionário quanto realiza a importante tarefa de fazer a contraparte em termos de expectativas. Explico: suponha que uma parte dos agentes acredite que o preço de uma ação vai cair e então façam ofertas de venda de tais ações no mercado, se não houver agentes que apostem na elevação no preço mais adiante, o preço cai cada vez mais (isso acontece mesmo, nos momentos de crise!), porém os especuladores podem assumir essa posição de compradores na baixa e vendedores na alta. Isso requer que os esforços de tempo e de trabalho de tais agentes, os especuladores, estejam voltados principalmente para esta atividade: obter ganhos financeiros. Um atividade tão honesta e importante quanto tantas outras… Requer também conhecimento teórico e prático de finanças, do funcionamento da economia, de estatística, de contabilidade, de história, etc.,  além de características de aptidão pessoal (trabalhar bem sob extrema pressão, por exemplo).

Será que se pode ensinar a alguém “a atividade de especulação?”. Tema para o próximo post

 

 

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Inaugurando

 

Finalmente decidi, com a firmeza de convicção necessária, iniciar um blog – uma decisão parecida com aquelas de início de ano… Uma decisão difícil, preciso dizer, para quem ter por hábito e por força de profissão o cuidado com a língua pátria segundo a norma culta, o burilar de um texto por semanas, às vezes meses…

Isto aqui exige rapidez, despojamento, desapego e, principalmente, coragem para expor erros de toda sorte, humildade para corrigi-los quando descobertos ou apontados pelos leitores, ou mesmo um certo desleixo em deixá-los lá onde estão ainda que sabidos. Grande desafio!

Não pretendo trazer para este espaço discussões extremamente técnicas e/ou complexas em minha área de atuação, a Economia – para isso faço uso de outros fóruns. Ao contrário, quero aqui aperfeiçoar minha capacidade de falar sobre economia numa linguagem simples e acessível, até mesmo informal, permitindo-me emitir avaliações normativas – o que procuro não fazer em sala de aula – sobre os diversos temas tratados.

No entanto, Economia não é minha única paixão – sou uma pessoa de múltiplos interesses; o que torna quase impossível circunscrever a temática deste blog… Por isso o título, mais que adequado: Random Walk (Passeio Aleatório) –  um Passeio Aleatório por assuntos, notícias, temas que considero merecerem algum comentário, às vezes técnico, racional, às vezes amador, subjetivo…

Você saberá lendo!

Bem-vindos!!