Crise 2007-2008, Mercados Financeiros, Política Monetária

F-ECO: O que são e como funcionam as Políticas Macroprudenciais?

.

“Políticas macroprudenciais são medidas que visam fortalecer o sistema financeiro, reduzindo o risco tipicamente procíclico do mesmo. Esse comportamento ocorre porque em períodos de expansão econômica, há incentivos para demasiada expansão do crédito, elevando o risco das operações. Seu objetivo final é suavizar o risco no tempo, ao conter expansões de crédito em períodos de boom e assegurando a liquidez em períodos de contração.

Os instrumentos podem ser separados em dois grupos: os de dimensão temporal, que buscam conter a prociclicidade do risco, e os de dimensão cross-section, onde objetiva-se controlar esse risco em um dado momento, considerando a contribuição de cada instituição financeira para tal. Dentro do primeiro grupo são utilizados os seguintes instrumentos:

  • Provisão de perdas para devedores duvidosos, de forma que o risco de empréstimos seja minimizado;
  • Requerimentos mínimos de capital, utilizados de forma anticíclica, para que eles sejam mais elevados em períodos de expansão e mais baixos em períodos de contração, elevando e reduzindo o fluxo de crédito de acordo com a conjuntura;
  • Recolhimentos compulsórios: Instrumento capaz de influenciar a capacidade de empréstimo dos bancos. Também deve ser utilizado de forma anticíclica.
  • Loan-to-value ratio: Razão entre o valor dos ativos emprestados e o colateral. A razão tende a diminuir nas fases de expansão e aumentar nas fases de contração. A regulamentação teria como objetivo tornar a avaliação do colateral menos sensível ao preço do ativo;
  • Descasamento de moedas: Evitar o descasamento de moedas tem o intuito de fortalecer o sistema financeiro, principalmente para países com moeda internacionalmente fraca, uma vez que o endividamento externo é procíclico.

Em relação ao segundo grupo, destacam-se medidas para regular o capital dos bancos, com enfoque nas operações de ativos e passivos das instituições.

Políticas Macroprudenciais no caso brasileiro

f-eco-grafico1

No caso do Brasil, observa-se a utilização de políticas macroprudenciais no período imediatamente anterior à eclosão da crise. Naquele período, ainda de expansão econômica, o Banco Central aumentou os recolhimentos compulsórios devido a aceleração das operações de crédito, buscando impedir seu crescimento desenfreado. Ao mesmo tempo, a taxa básica de juros manteve-se elevada, como forma de controlar as pressões inflacionárias.

Com a deflagração da crise, o recolhimento compulsório mais uma vez foi utilizado como ferramenta para manter a saúde do mercado financeiro. Dessa vez, percebe-se o processo de queda do mesmo, com o intuito de resguardar a liquidez dos bancos no cenário de crise. Paralelamente, a SELIC começa uma trajetória de queda.

Em um terceiro momento, no começo de 2010, o Banco Central do Brasil considera que o sistema financeiro está seguro e portanto, mantendo a lógica de uma política macroprudencial anticíclica, os recolhimentos compulsórios voltam a aumentar e a SELIC também começa um movimento de elevação.

Assim, podemos ver que a relação entre políticas macroprudenciais e política monetária no caso brasileiro é de fato complementar, uma vez que ambas foram utilizadas de forma conjunta para, ao mesmo tempo, manter a inflação sob controle, através das taxas de juros, e manter o sistema financeiro protegido do risco, na medida do possível, por meio da movimentação do recolhimento compulsório.

A crise ensinou que o uso de um único instrumento de regulação é insuficiente, forçando a política monetária a olhar para outros aspectos e, assim, surge o papel da medida macroprudencial, que afeta o canal de crédito.

 

Bibliografia:

INFOMONEY. Entenda melhor o que são medidas macroprudenciais e sua atuação na economia. Disponível em: <http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/2066656/entenda-melhor-que-sao-medidas-macroprudenciais-sua-atuacao-economia>. Acesso em: 19 set. 2016.

MISHKIN, F. S. The Conduct of Monetary Policy: Strategies and Tactics, In: The Economics of Money, Banking and Financial Markets. Cambridge: Pearson Publishing, 2012. p. 399

OLIVEIRA, G.C.; ROLIM, L.; BLIKSTAD, N. Regime de metas para a inflação e medidas macroprudenciais: uma análise à luz da experiência brasileira recente (2008-2013). Revista Pesquisa & Debate, São Paulo, v.27, n.1, p. 27, mar. 2016.”

 

.

Política Monetária

ECEC O – Políticas macroprudenciais no Brasil

 

A recente crise internacional evidenciou a deficiência da estrutura regulatória do sistema financeiro brasileiro em vigência. Muitos economistas têm atribuído esse episódio à falta de medidas macroprudenciais à regulação do sistema financeiro. Enquanto a abordagem microprudencial visa evitar a quebra de instituições financeiras isoladamente, a abordagem macroprudencial pretende preservar o sistema financeiro como um todo.

As medidas macroprudenciais são políticas que tem por objetivo reduzir o risco sistêmico e assegurar a estabilidade do sistema financeiro contra choques externos. È normal em períodos de crescimento da economia, a diminuição do risco, os preços dos ativos sobem, o crédito aumenta  impulsionam as instituições. Já em épocas de crise, ocorre o oposto, em períodos de desaceleração econômica, surge um ciclo vicioso quando acontece desalavancagem do sistema financeiro,  queda nos preços dos ativos. Esses aspectos denominados de pró-cíclica é difundido pelo sistema financeiro pelo “mecanismo de aceleração financeira”. A princípio, uma alternativa para muar o cenário, são as medidas macroprudenciais, tornando empréstimos mais difíceis de serem efetuados em tempos de “boom econômico”, tentando prevenir desequilíbrios em momentos de desaceleração econômica.

Mudanças nas taxas de juros e medidas macroprudenciais atingem tanto a demanda e oferta adjuntas quanto as condições do sistema financeiro de maneira equivalente. Se por um lado, a política monetária atinge os preços dos ativos e os mercados financeiros de maneira geral, por outro, as medidas macroprudenciais podem surtir diversos efeitos macroeconômicos diversos, que se expandem ao buscar elevar ou recuar o ritmo do ciclo econômico, um exemplo é quando tais medidas implicam diretamente sobre a oferta de crédito.

Entretanto, essas duas medidas não são as melhores alternativas, de maneira geral são complementares, especialmente se existe grandes fluxos de entrada de capital que buscam a aumentar a vulnerabilidade do sistema financeiro. A política monetária pode ser brusca demais ao afetar a economia como um todo, mesmo representando um risco ou não à estabilidade econômica. Por exemplo, a necessidade de aumento de juros pode ser alto demais produzindo grande volatilidade na demanda agregada. Já medidas macroprudenciais podem ser direcionadas para um setor especifico que aparenta estar em risco mais evidente. Somado a isso, quando se muda as taxas de juros podem provocar um efeito nulo no aumento do crédito se as empresas conseguem pegar dinheiro à taxas menores no mercado internacional. Outro problema é o conflito gerado entre atingir a estabilidade financeira e macroeconômica por meio de política monetária. Por exemplo, as metas de inflação, se a expectativa da mesma esta de acordo com a meta, interferir na oscilação dos preços dos ativos para preservar a estabilidade financeira pode prejudicar a credibilidade do sistema de metas da inflação afetando todo o seu funcionamento.

Medidas Macroprudenciais não devem mudar os efeitos de política monetária, e, assim não podem ser usadas sozinhas para adaptar uma reação monetária desejada.

As chamadas medidas macroprudenciais, aplicadas pelo Banco Central do Brasil, entraram em cena pela primeira vez ainda no começo da crise econômica brasileira, entre 2008 e 2009. Esta servia como resposta à crise, onde o Banco injetava dinheiro para incentivar a economia. Como a função do Banco Central brasileiro é garantir a estabilidade monetária, diferentemente do Federe Reserve (Fed, o BC dos EUA), por exemplo, o qual deve se preocupar tanto com a estabilidade quanto com a taxa de desemprego, esta foi uma forma do governo fazer política de crescimento econômico.

Recentemente estas medidas voltaram à cena. Desta vez o BC aliviou regras do recolhimento do compulsório (fatia do dinheiro que os bancos, públicos ou privados, são obrigados a depositarem no BC para evitar empréstimos desproporcionais) e mudou fatores de ponderação de risco para o crédito ao varejo. Estas medidas têm por objetivo injetar 45 bilhões de reais na economia, o que equivaleria a 1,5% do atual estoque de crédito no país, que está em R$2,8 trilhões.

Tais mudanças, segundo o BC terão impacto imediato de 30 bilhões de reais em recursos na economia com uma mudança na regra dos depósitos compulsórios, trata-se de contribuição obrigatória que os bancos têm que fazer junto ao Banco Central. O valor é calculada baseado no volume de depósitos feitos à vista e à prazo nas instituições.

 REFERÊNCIAS

http://spotniks.com/banco-central-lanca-medidas-para-estimular-credito-e-injetar-r25-bilhoes-na-economia/

http://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN0FU15920140725.

UNZAL, F; Capital Flows and Financial Stability: Monetary Policy and Macroprudential Responses Framework, August, 2011.”

.

 

 

Política Monetária

ECO L – Políticas Macroprudenciais

 

“O requerimento de capital contracíclico desempenha um papel macroprudencial cujo principal objetivo corresponde a proteger o sistema bancário de períodos de crescimento excessivo do crédito, os quais geralmente estão associados a períodos de elevado risco sistêmico.” 

Bank for International Settlements (2010)

 

Políticas macroprudenciais (ou macro-pru) são decisões administrativas dos Banco Centrais (BC) as quais tem efeitos diretos sobre o volume de crédito na economia, e vistam a prevenir pressões inflacionárias com potencial de risco sistêmico. Tradicionalmente existem três canais pelos quais se pode operacionalizar o combate à inflação: câmbio, taxa de juros e crédito. As medidas macro-pru tem como meta a contenção de demanda sem que para isto a Autoridade Monetária (AM) tenha que atuar necessariamente sobre a taxa de juros.

Conforme artigo publicado recentemente no The Wall Street Journal (WSJ), regulação macroprudencial é o mais novo modismo e se refere as políticas que elevam os requisitos para as instituições financeiras numa tentativa de controlar a concessão de empréstimos (Kupiec, P.H. – 28/09/2014).

Na prática, a contenção do crédito ocorre por meio da elevação dos compulsórios e pela maior rigidez na concessão de crédito por parte dos bancos comerciais, uma vez que estes terão de aumentar o nível de capital próprio nas operações de longo prazo. O efeito disto é o arrocho nas exigências para acesso ao crédito, alterações no “loan-to-value” (limites associados à renda do tomador). Assim como a elevação dos custos e aumento de juros específicos para determinados segmentos. Neste cenário, o público em geral passa a ter menos incentivos para tomar empréstimos, consequentemente a demanda por financiamentos cai, assim como os preços e a pressão inflacionária.

Portanto, as medidas macroprudenciais atuam sobre a regulação dos bancos de maneira a diminuir situações de desequilíbrios inerentes aos ciclo econômico. Esses ciclos apresentam duas tendências: em períodos de expansão os agentes tendem a aumentar sua exposição a riscos, enquanto que em períodos de recessão os indivíduos se tornam extremamente avessos ao risco.

Pelo mundo:

Austrália – Real Time Economics

O BC da Austrália está preocupado com a alta dos preços das casas, se mostrando inclinado a reprimir ainda mais os empréstimos hipotecários, ao contrário do que estão fazendo seus conterrâneos, países como Nova Zelândia, Canadá e Reino Unido.

(Glinn, J. – 26/09/2014)

EUA – WSJ

Desde a crise financeira de 2008, os reguladores bancários norte-americanos puseram em prática novas regras de supervisão que limitam a capacidade dos bancos para fazer determinados tipos de empréstimos, os chamados empréstimos-mercado-de alavancagem, para corporações de baixo rating e para hipotecas residenciais.

Israel – WSJ

Quando as taxas de juro de curto prazo são baixas e taxas de longo prazo são elevadas, os mutuários preferem usar a curto prazo, ou ainda, a dívida de taxa flutuante, para minimizar o pagamento de juros. E assim aconteceu em Israel, quando um surto de crescimento de empréstimos hipotecários foi alimentado por hipotecas com baixas taxas de juro de curto prazo. Quando os requisitos de capital (garantia) mais elevados e menores limites de empréstimos em relação ao valor não funcionou, o Banco de Israel reduziu o crescimento do crédito imobiliário, exigindo que os bancos amarrassem as taxas de hipoteca de taxa de juros de longo prazo.

(Kupiec, P.H. – 28/09/2014)

Links:

http://online.wsj.com/articles/paul-kupiec-when-central-bankers-become-central-planners-1411945265

http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/2066656/entenda-melhor-que-sao-medidas-macroprudenciais-sua-atuacao-economia

http://blogs.wsj.com/economics/2014/09/16/australias-central-bank-holds-off-macroprudency/

.

 

Política Monetária

ECEC J – Políticas Macroprudenciais no Mundo

 

“Quando surgiu?

As políticas macroprudenciais surgiram na década de 1970, no contexto da Crise do Petróleo, que causou o aumento do preço do mesmo, afetando os empréstimos bancários e a estabilidade do sistema financeiro internacional. Com a Crise de 2007-2008, essas políticas ganharam maior espaço nas discussões econômicas, já que foi necessária a reforma do sistema de regulação financeira, enfatizando a relação entre a saúde dos bancos e os ciclos econômicos.

O que é?

Políticas Macroprudenciais são decisões administrativas do banco central, caracterizadas pela utilização de instrumentos de regulação, os quais buscam diminuir o risco sistêmico, através do canal de crédito.

Por meio delas, os bancos são obrigados a manter maior quantidade de reserva para cada empréstimo concedido, elevando essa exigência se o financiamento for de longo prazo. Essa medida faz com que os bancos concedam menos empréstimos, e consequentemente eleva a taxa de juros para os tomadores de empréstimos.

Sendo assim, as politicas macroprudenciais objetivam, em períodos de rápido crescimento do crédito, um sistema financeiro mais estável, já que além de enfraquecer o crescimento do crédito, causa uma redução dos preços dos ativos.

Quais os efeitos dessa política?

Os principais efeitos do emprego dessa política são: a redução da oferta de crédito, do consumo e da inflação. Alguns economistas acreditam que a politica macroprudencial é um bom instrumento para o controle da inflação. No entanto, apontam algumas falhas, como o fato de afetarem pouco as decisões de poupança e investimento, sua intensidade e o tempo de seu efeito ser incerto ou desconhecido, e por criarem distorções e ineficiências no mercado de crédito.

Exemplo internacional

Na Nova Zelândia, em maio de 2013, o Ministro de Finanças, Hon Bill English, e o governador do Reserve Bank, Graeme Wheeler, assinaram um Memorando de Entendimento em Política Macroprudencial (MOU). Esse memorando contém uma descrição dos mecanismos de governança para a aplicação dos instrumentos macroprudenciais. Esses instrumentos são:

  • the countercyclical capital buffer (CCB) ou reserva de capital contra cíclica, objetiva garantir que os bancos detenham reserva suficiente de capital para absorver perdas inesperadas, e assim não comprometer a concessão de crédito;
  • adjustments to the minimum core funding ratio (CFR)ou proporção de alavancagem de recursos mínima entre os bancos, que reduz o risco de transformação da maturidade, exigindo credores para financiar o seu equilíbrio usando uma parcela maior de financiamento estável.
  • sectoral capital requirements (SCR) ou requerimento de capital setorial, caracteriza-se como uma política, que requer reservas de capital, para empréstimos concedidos à setores da economia que apresentam alto crescimento;
  • temporary restrictions on high loan-to-value ratio (LVR) residential mortgage lending ou restrições temporárias sobre a proporção dívidas-valor elevada em empréstimos de hipotecas residenciais,  são utilizadas para estabelecer o equilíbrio no setor da habitação e podem assumir uma determinada proporção do valor do imóvel (LVR) ou também como uma restrição sobre a parcela de empréstimos (como uma proporção da carteira de crédito habitacional do credor ou de novos empréstimos).

Comparação com a Politica Monetária

Muitas pessoas confundem política macroprudencial com política monetária, porém, essas políticas não são substitutas e sim complementares. Enquanto, a política macroprudencial se encarrega apenas de estabilizar o sistema financeiro, a politica monetária é utilizada para ajustar os ciclos macroeconômicos.

Referências: http://www.rbnz.govt.nz/financial_stability/macro-prudential_policy/

http://blogdovinicius.folha.blog.uol.com.br/

http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/2066656/entenda-melhor-que-sao-medidas-macroprudenciais-sua-atuacao-economia

.