Cultura Econômica, Inflação

Reencontrando a jovem estudante de economia

Organizando meus arquivos antigos, deparei-me com textos que mal são reconhecidos no editor atual. São velhos. Velhos resquicíos de uma jovem e dedicada estudante de economia: eram os textos que compuseram minha iniciação científica, intitulada “Síntese Neoclássica e Curva de Phillips: uma formalização do problema da inflação” – sim, à época todos temiam o “dragão da inflação”!!

Fazer equações e gráficos naquela época era uma tarefa muito dura e eu, sem computador em casa e com pouco tempo para digitar meu texto no laboratório de informática da FEA, optei por deixar espaços que seriam preenchidos à mão por gráficos e equações… rs… algo impensável hoje! Nem por isso o trabalho deixou de ter excelente qualidade e, além da bolsa Fapesp, recebeu um dos prêmios de melhor monografia daquele ano!

Tenho me divertido lendo os escritos da jovem estudante… E pretendo juntar todos os arquivos em LaTex e reeditar o trabalho completo qualquer dia desses (aceito ajuda, claro!). Por hora, reporto um trecho da subseção das conclusões (repare no subtítulo… rsrs…):

“Dos Ombros de um Gigante

       Este trabalho logrou percorrer uma boa parte dos desenvolvimentos da macroeconomia até a década de setenta. Começamos nos anos vinte com um estereótipo da teoria clássica, em seguida apresentamos as contribuições de Keynes através de um estudo da Teoria Geral. Com a Síntese Neoclássica procuramos chamar a atenção para alguns pontos importantes daquelas contribuições que foram completamente distorcidos ou negligenciados por esta reinterpretação neoclássica de Keynes. Visando compreender o instrumental de análise da inflação, agregamos ao estudo a Curva de Phillips e acompanhando suas versões vimos os pilares da racionalidade neoclássica sendo remontados.

      Embora ciente da pouca profundidade em muitos tópicos da análise aqui empreendida, a visão ampla do desenvolvimento da macroeconomia propiciada por este esforço de pesquisa permite questionar até que ponto a ciência econômica evoluiu de fato, no sentido de contribuir para uma melhor compreensão do real funcionamento das economias capitalistas modernas.”

Bem… daí já se depreende o viés crítico. O textou seguiu sintetizando os principicais desenvolvimentos do trabalho, enfatizando o uso intensivo de matemática e econometria (que não condenei, ainda bem… rsrs), e termina com estes dois singelos e ingênuos parágrafos:

“Se é a incerteza que cerca as decisões cruciais, como as de investir, que abre espaço para a não neutralidade da moeda e se não há  motivos para que, mesmo no longo período, a moeda perca suas peculiaridades e atributos a ponto de deixar de ser uma alternativa aos investimentos, não há  porque inferir sua neutralidade no curto ou no longo períodos.

      Mantendo esta postura mais realista, estamos mais próximos da compreensão do funcionamento das economias capitalistas avançadas e das questões macroeconômicas que delas emergem – descobrimos o mundo fascinante por trás das curvas de oferta e demanda!”

Ok. Não tenho como escapar – nos tenros anos da juventude, quase aderi à heterodoxia pós-keynesiana!!! Não me arrependo, foram anos de intenso aprendizado e estudo de textos clássicos, incluindo a própria Teoria Geral, de cabo a rabo estudada e debatida com minha orientadora, Profa. Silvia Schor, a quem só tenho palavras de agradecimento e reconhecimento pelo seu excelente trabalho de orientação. Enfim, tem sido divertido reler a jovem Roseli, tão cheia de ambições e sonhos, com a paciência e a tolerância que só a maturidade nos propicia!

Diversão & Arte

Síntese de 2013 – com intenção de blogar mais em 2014… ;-)

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

The concert hall at the Sydney Opera House holds 2,700 people. This blog was viewed about 9,800 times in 2013. If it were a concert at Sydney Opera House, it would take about 4 sold-out performances for that many people to see it.

Click here to see the complete report.

Cultura Econômica, Ensinando Economia

Os meus, os seus, os deles!

 

É interessante observar que aluno é aluno, em qualquer lugar do mundo. Preparando um experimento para uma turma, observei que as regras para a aplicação da atividade à classe incluíam um artifício para evitar que os alunos alterassem os resultados obtidos ao longo das rodadas… o experimento foi desenvolvido, testado e publicado por professores americanos, que fizeram a atividade com turmas de até 180 alunos… Tá aí um bom exemplo da importância da regulação em ambientes com assimetria de informação!

Também outra observação: não são apenas os nossos alunos, em geral passivos em relação ao seu próprio processo de aprendizagem, que fazem perguntas do tipo “cai na prova?” ou “professor, pode rever minha nota?” ou “posso entregar amanhã?”. Essa tirinha diz tudo!

http://www.phdcomics.com/comics/archive.php?comicid=1614

 

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Cultura Econômica, Diversão & Arte, Ensinando Economia

Um dia explicando o que o Economista faz!

 

Deveria dizer “mais um dia”, afinal faço isso cotidianamente para meus próprios alunos! Mas dessa vez foi para um público muito especial: os possíveis candidatos à uma vaga na FEA-RP, mais precisamente no curso de Economia, que participaram da 12a Feira de Profissões da USP, que aconteceu nesses últimos três dias na Esalq de Piracicaba.

Foi uma experiência interessante e reveladora: uma boa parte dos candidatos estava em dúvida entre Direito e Economia, e aqueles que estavam mais seguros de que já tinham escolhido a profissão, dentre as carreiras ofertadas pela FEA-RP, tinham escolhido Economia!! E eu me vi naqueles moçoilos e moçoilas que já tinham decido… também eu, ainda no segundo ano do ensino médio já sabia que queria ser economista!! É um bichinho que pica a gente e a gente sabe!! rsrs…

A propósito, como passei a alguns o endereço do meu blog, vale resgatar alguns posts anteriores sobre o assunto:

Economista? Que bicho é esse?

Papel social do economista.

Esse é só para os iniciados… Economistas também amam!

É isso! E duas fotos:

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Cultura Econômica, Diversão & Arte, Mercados Financeiros

Diversão e Aprendizado: alunos do ensino médio visitam USP

 

Ontem foi um dia daqueles! Passei a manhã toda aplicando uma atividade muito divertida e dinâmica aos alunos de ensino médio que visitaram a USP-RP para conhecer o curso de Matemática Aplicada a Negócios (MAN). Este curso, originalmente criado como um curso inter-unidades entre a FEA-RP e a FFCLRP, agora é de responsabilidade apenas desta última, porém ainda conta com a participação de docentes da FEA-RP. Daí que eu, a convite da minha colega Profa. Natália, que atualmente leciona uma disciplina para o curso, fomos participar do “Dia da Matemática”, organizado principalmente pelos próprios estudantes do curso, em que alunos de ensino médio são recebidos e participam de atividades que mostram como será a vida universitária deles, caso escolham estudar no MAN.

Eu e minha colega estávamos lá para dar o gostinho da Economia que também se estuda no curso! Realizamos uma dinâmica em que um mercado concorrencial é simulado, com metade dos estudantes agindo como vendedores e metade, como compradores – semelhante aos antigos pregões das bolsas de valores. Após as rodadas de negociação, sempre animadas, explicamos brevemente as noções de oferta, demanda e equilíbrio de mercado. A mesma atividade já foi realizada por nós em projeto de extensão da USP-RP, em 10 escolas de ensino médio de Ribeirão Preto (para entender a atividade, veja  os posts Economia no Ensino MédioEnsinando Economia por meio de jogos em sala de aula )

Realizamos três aplicações consecutivas de cerca de 1h30min cada, para um total de quase 250 estudantes! Em uma das sessões, trabalhamos com 84 jovens, com muita energia e vigor! Destaque especial para a participação da E.E. Irene Dias Ribeiro, cujos estudantes inovaram improvisando placas de “COMPRO” e “VENDO” buscando fechar negócios com maiores ganhos rapidamente, no meio da multidão de negociantes!! Foi muito divertido!! Esta escola tem também um blog e já há um post com fotos da participação do pessoal (veja aqui).

Parabéns aos professores dessa moçada toda, a cada experiência que tenho desse tipo, mais cresce minha admiração pelo trabalho árduo de vocês.

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Cultura Econômica

Um semestre sem alunos

 

O perfil deste blog vai mudar um pouco neste semestre: estou fora das salas de aula, num período sabático dedicado às minhas pesquisas. Então, sem aluninhos, o uso como instrumento didático que venho implementando aqui fica impossibilitado… Porém, pretendo manter as postagens regulares, retomadas hoje, com conteúdo parcial, dos temas que pesquiso e também reportando e sugerindo leituras de artigos interessantes e recentes na área de macroeconometria, políticas monetária e fiscal, e mercados financeiros, sempre buscando um público mais amplo numa linguagem tanto informal quanto possível para mim.

Interrompi as postagens com o final do semestre passado, mas um fato interessante a notar é que o blog continua sendo bastante acessado! A média diária de acessos foi de 26 em julho, somando mais de 800 acessos… considerando que nada novo é postado deste de meados de junho, até que está bom! Os termos de busca “medidas macroprudenciais” (veja o post Medidas macroprudenciais e política monetária) e “random walk” (veja a página Random Walk???) continuam sendo os campeões entre os que levam os internautas ao blog, por meio de pesquisas na internet. As categorias mais acessadas são as de Cultura Econômica, Política Monetária e Mercados Financeiros.

Por enquanto é isso: só um post para retomar o hábito e novas condições de temperatura e pressão!

Até!

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Diversão & Arte

Economistas também amam!

 

Eu conheci essa página ano passado, circulou no facebook. Achei realmente bacana e reporto aqui como dica para o dia de hoje:  “A gestão de expectativas é a chave para um longo e feliz relacionamento”… Pensa que é só gerenciar suas finanças e tudo bem?? Nada disso…  😉

“14 Ways an Economist Says I Love You

Give your loved one a nerdy Valentine and they’ll be yours forever! Why? Because if you give them diamonds/cufflinks this year, anything you get them next year will fall short. Give them one of these and anything they receive next year will be a step up. It’s called expectation management and is the key to a long and happy relationship. On that dismal (science heyoo) note, Happy Valentine’s Day.

Source: http://fosslien.com/heart/ ”

 

 

Cultura Econômica, Ensinando Economia

Síndrome de quase fim de semestre

Não tem jeito, ela está de volta… uma ano fora das salas de aula e achei que seria suficiente para aplacar a minha síndrome de fim de semestre. Não foi. E pior: ainda nem corrigi as provas intermediárias!!

Minha síndrome aparece na forma de um desânimo e um cansaço em dispender energia para tornar o processo de ensino-aprendizagem mais eficiente, buscando formas mais adequadas de tratar os conteúdos, enfatizando o senso de continuidade dos temas abordados em aula, tentando inovações didáticas, etc, etc… Nada parece funcionar para que os estudantes compreendam seu papel no seu próprio processo de aprendizado: eles continuam lá, corpos presentes, mentes ausentes, como se aprendessem por osmose, raramente se dedicando àquilo que deles se espera – estudar, manter uma rotina do que eu chamo “horas-bunda de estudo”. Ok, você pode pensar que o problema não seja esse, que simplesmente a maior parte dos alunos (ou todos) opta por estudar outras disciplinas que não a minha, por motivos de afinidades pessoais com o conteúdo e/ou com o professor. É verdade. Isso pode acontecer, porém ainda não encontrei, em quase quinze anos de docência, um colega que me diga: “poxa, em média, essa turma estuda a minha matéria! participa das aulas fazendo questões interessantes (porque estudam antes da aula) e respondendo às questões que eu proponho, uma beleza!!”.

Sempre tenho longas conversas com alguns poucos colegas (de outras áreas) que se preocupam com o ensino e a formação dos estudantes, minha suspeita é a de que nosso sistema educacional forma robos passivos que vão às aulas esperando receber “cuspe e giz”. Pode até ser que seja, mas, poxa! no segundo ano de faculdade, com a idade e a experiência, já dá para começar a perceber que isso não funciona e que aprender depende mais de si do que do sujeito que está na frente da lousa!!

Até o final do semestre, minha síndrome se agrava e com certeza eu vou voltar aqui no papel de professora chata… rs

Felizmente, e porque minha decisão pela carreira docente é emocional e não racional, a cada nova turma eu recupero a esperança em que “dessa vez vai ser diferente”, afinal, estamos na Universidade de São Paulo, e se as coisas não melhorarem por aqui… enfim…

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Cultura Econômica, Mercados Financeiros, Política Fiscal

O II Enbeco

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No ultimo dia 09 de março, encontramo-nos em Belo Horizonte, no Ibmec, para a realização do II Encontro Brasileiro de Blogueiros de Economia (Enbeco), organizado por Claudio Shikida e Cristiano Costa. No primeiro painel do evento, participaram os colegas Angelo Fasolo (The Duke of Hazard), Celso Toledo e Fabio Kanczuk (A Consciência de três Liberais), Drunkeynesian (Anônimo, mas não mais para os participantes do encontro!), que falaram sobre a crise do euro e o caso da Grécia, e concordaram que, após o ajuste da dívida grega, acabou a crise do euro, mas sem uninanimidade sobre a saída ou não da Grécia da zona do euro.

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No segundo painel, participamos eu, Thomas Kang (Oikomania) e Claudio Shikida. O tema era o uso dos blogs na sala de aula, eu iniciei o painel contando um pouco da minha experiência em usar o blog como repositório de textos sobre temas de macroeconomia e finanças, mas também como estratégia didática, com atividades que envolvem a participação ativa dos estudantes, conectadas a atividades em sala de aula e, obviamente, com avaliação e nota. Os colegas do painel contaram um pouco da história de seus respectivos blogs, mas sem um foco muito específico no tema. Num momento em que a internet ja vem revolucionando a educação, esse é um tema que não atrai os colegas professores de economia, aqui no nosso mundo – a maior parte vai mesmo na linha do “chalk and talk”… (veja esse post).

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O último painel contou com a participação de Cristiano Costa, Felipe Salto (Blog do Felipe Salto) e Fernando Meneguin (Brasil, Economia e Governo), tratando do tema fiscal, com a entusiasmada atuação do Cristiano, tentando chamar a atenção da platéia para o absurdo que é nossa estrutura tributária.

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Foi um encontro bastante divertido e informal, muito bem organizado, e que rendeu bons debates de idéias e, mais importante, a oportunidade para o público de conhecer um pouco mais das contribuições da blogosfera para a disseminação de informações e análises técnicas ou normativas sobre temas de economia.

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Obrigada a todos, patrocinadores, participantes e painelistas, e principalmente, ao Cláudio e ao Cristiano, pela organização do evento! 

Experiências no pós-doc

Voltando à vida normal…

 

Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à rotina da vida normal… Se bem que não há muita rotina na vida de um acadêmico, e esse é um dos fatores que me fez escolher essa carreira: não sirvo para trabalho 9-às-6. Meu trabalho está sempre comigo, às vezes viro noites terminando o estudo de um artigo, às vezes passo dias estimando modelos econométricos, outras ainda escrevendo, escrevendo, escrevendo resultados e reflexões sobre minha própria pesquisa… Estas atividades solitárias, em período letivo, são recheadas pelo contato com a moçada, os estudantes – a cada semestre tornamos a mesma disciplina que eu já lecionei em algo dinâmico e diferente. Minha vida pessoal também não é caracterizada pela rotina, não conservei nem casa nem carro ao longo desse ano e nada material me espera em meu retorno… Só o carinho, o amor e a saudade imensa da família e amigos me esperam, ou seja, o que de fato importa na vida! 

Então, reformulo: Preparando-me para regressar, reassumir minhas funções junto à Fearp/USP e voltar à vida normal!

Tudo experimentado, vivido, aprendido ao longo desse ano, difícil em muitos aspectos, mas também prazeroso e estimulante em tantos outros, deixa marcas profundas em quem eu sou hoje e em quem serei daqui para frente. Nova York é uma cidade fantástica e me adaptei muito bem aqui, sou uma mulher de grandes metrópoles – fato. A Universidade de Columbia, um ambiente acadêmico de excelência, um tanto hostil, mas ainda menos que os nossos pretensos redutos do saber… as oportunidades de aprendizado que tive aqui são inestimáveis. Não volta a mesma Roseli, muito menos a mesma Professora Roseli… esta ainda mais cheia de ideias e, como sempre, muito preocupada com o ensino e as práticas didáticas, num momento em que os fundamentos da ciência econômica estão sob questionamento.

Ainda estou em dúvida sobre qual o momento mais difícil: aquele que antecedeu minha vinda, ou este, que antecede a volta. Estando nele, não sou capaz de julgar… mas é fato que o atual traz um elemento totalmente desconhecido para mim até então: o que essa nova Roseli vai achar daquela vida normal? Será que elas vão se entender bem? Será que a readaptação vai ser suportável? Será que a minha vida normal de antes também será outra a partir de agora?

Não sei as respostas. Já aprendi também que o medo do desconhecido, até certo ponto, é saudável… e que crescer, dói. Ainda assim sempre escolho os caminhos do crescimento. De resto… carpe diem!