Câmbio, Mercados Financeiros

G-Eco: Sobre a Paridade do Poder de Compra (PPC) e sua validade no Brasil

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O conceito de Paridade do Poder de Compra (PPC) consiste em comparar efetivamente uma quantidade de produtos que possa ser comprada em diferentes moedas, sendo estas convertidas a uma (e em comparações internacionais esta costuma ser o dólar), chegando, assim, a elucidar de modo comparativo, o poder de compra de cada moeda. Parece um conceito distante de qualquer realidade, mas há um exame de comparação realizado anualmente pela revista The Economist chamado Índice Big Mac que nos auxilia a entender este conceito: tal índice compara as quantidades necessárias de moeda em diferentes países para a aquisição do lanche padrão no McDonalds.

            Através da análise internacional da PPC podemos chegar a uma aproximação maior do custo de vida dos diversos países. A crítica existente a este conceito ocorre por dois motivos: 1) as chamadas “cestas de produtos” não são uniformes entre os países e 2) as flutuações não ocorrem em níveis uniformes (ambos geram dificuldade em se realizar uma adequada comparação).

            A PPC não é um conceito direto e fechado – “é válida ou não” –, pois divide-se em duas vertentes: a versão absoluta afirma que um bem deve ter o mesmo preço em dois países caso os preços estejam sendo expressados em uma mesma moeda, enquanto a versão relativa sinaliza que a razão de preços existente para um mesmo bem em países diferentes deve ser constante ao longo do tempo (CASSEL, 1922).

            Uma vez que a PPC se relaciona à taxa de câmbio, é notável o efeito de valorização ou desvalorização cambial sobre nosso poder de compra: quando da valorização de nossa moeda, temos um aumento do poder de compra – e o contrário também é verdadeiro, ceteris paribus. Ilustrativamente: desde o início dos anos 2000, temos, então, uma redução no poder de compra quando da eleição de Lula em 2002 (quando o dólar chegou a ultrapassar R$4,00), um aumento considerável durante o segundo mandato de Lula (entre 2007 e 2010, com o dólar a menos de R$2,00) e, mais recentemente, uma queda do poder de compra entre o final de 2014 e o primeiro trimestre de 2016 (dólar de R$2,30 para R$ 4,15).

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 Cambio X Paridade entre Abr. 2000 e Out. 2014

             Seria válida a PPC no caso brasileiro? Alguns estudos discutem este caso através de métodos econométricos e chegam ao entendimento de que isso não possa ser confirmado (ao menos na forma absoluta de PPC):

             Freixo & Barbosa (2004) aplicam o modelo não linear auto regressivo com transição suavizada (STAR) à taxa de câmbio brasileira entre 1959 e 2004, logo após apresentarem um levantamento da literatura sobre PPC; a tese de que a PPC seria válida para o caso brasileiro é rejeitada justificando-se que a partir da análise realizada o que se encontra é que a taxa de câmbio brasileira apresenta comportamento “explosivo” quando próxima da paridade e “estacionário” quando o equilíbrio de longo prazo se encontra distante;

 Palaia & Holland (2010) também desenvolvem um levantamento de literatura e uma série de testes econométricos, chegando ao entendimento da não validade absoluta do conceito de PPC.

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                            Valor do dólar e taxas de juros, 1973-2008

Através do gráfico acima podemos acompanhar como a taxa de câmbio efetiva está muito mais alinhada com a taxa de juros reais do que com a taxa de juros nominais.  Assim, podemos verificar que nem sempre uma alteração na taxa de juros gera efeitos na taxa de câmbio, isso devido ao componente de expectativa de inflação embutido na taxa de juros nominal pela equação de Fisher.

Cabe ressaltar no gráfico que na crise financeira de 2007-2008 houve um descasamento entre as taxas de câmbio e a taxa de juros real, pois enquanto o FED reduzia a taxa de juros, os Bancos Centrais ao redor do mundo não pensaram ser necessária tal redução, cenário esse que se reverte depois, pois a crise começa a aprofundar seus efeitos no resto do mundo.

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Referências:

https://economia.terra.com.br/operacoes-cambiais/pessoa-fisica/entenda-como-e-calculada-a-paridade-de-poder-de-compra,05b62ebe54082410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

http://www.economist.com/content/big-mac-index

“Cassel, Gustav. 1922. Money and foreign Exchange after 1914. New York, Macmillan”

http://www.infomoney.com.br/blogs/investimentos-bem-pensados/post/3818331/quanto-alta-dolar-afetou-nosso-poder-compra

http://www.anpec.org.br/revista/vol5/vol5n3p75_116.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-80502010000100001

MISHKIN, F. S. The Foreign Exchange Market, Cap. 17 In: The Economics of Money, Banking and Financial Markets. Cambridge: Pearson Publishing, 2010.

MISHKIN, F. S. The Foreign Exchange Market, Cap. 17 In: The Economics of Money, Banking and Financial Markets. Cambridge: Pearson Publishing, 2012.

 

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Câmbio

F-Ecec: Paridade do Poder de Compra

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Para se comparar duas economias, diversas são as abordagens adotadas, como a o PIB bruto de cada um deles, a inflação obtida em dado período de tempo ou então o nível de renda. Porém, quando se trata de comparar os produtos e seus preços entre economias diferentes o que usamos é a chamada Paridade de Poder de Compra (PPC no Brasil, PPP na sua sigla em inglês). A teoria da PPC foi formulada pelo economista sueco Cassel (1922) e fala que, basicamente, dois bens iguais devem ter o mesmo preço se comparados em uma mesma moeda (em geral o dólar).

Um bom exemplo dessa comparação pode ser feito com o Playstation 4, da Sony. Quando lançado, no começo do ano de 2014, seu valor no Japão (país sede da empresa) era de 40 mil Yens. À época, a relação cambial entre o Yen e o Real era de aproximadamente Y$46,00 Yens para cada R$1,00. Fazendo-se a conversão pura temos que o mesmo produto, ao preço praticado no Japão, deveria valer R$840,00. Contudo o que se via no Brasil no mesmo período era que o valor do console saia pela bagatela de R$4000,00. Ou seja, algo estava errado em relação a Paridade do Poder de Compra desse produto.

A partir dessas comparações de possíveis PPCs, alguns produtos, comercializados e difundidos por muitos países, podem ser usados como referência no cálculo desse índice. É o caso do Índice Big Mac e do Índice Iphone. Com 30 anos de existência e feito pela conhecida revista ‘The Economist’, o índice Big Mac mostra o preço de um Big Mac nos países pesquisados (em dólar) frente ao preço praticado nos EUA. Se o preço em determinado país estiver maior que nos EUA, mostra que a moeda está sobrevalorizada em relação ao dólar e o seu poder de compra é menor, e vice-versa.

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Para o caso brasileiro temos um artigo (Palaia & Holland) que testa, por meio de procedimentos econométricos, a validade da paridade do poder de compra. Segundo os autores, o resultado é que não é válida a versão absoluta da paridade do poder de compra que diz, considerando a não existência de custos de transação e que os bens são homogêneos, que o valor da moeda de um país é completamente determinado pela razão entre o preço doméstico e o externo.

A não validade pode ser explicada pela existência de bens não transacionáveis (non tradables), que compõem os índices de preços, além dos próprios custos de transação, como por exemplo o custo de transporte ou então os diferentes impostos que percebemos em cada local. Os bens non tradables não são comercializados no mercado internacional, o que impede a arbitragem de se tornar o preço igual quando colocados na mesma moeda.

Portanto, apesar do fato de a paridade do poder de compra não ser válida em sua forma absoluta, quando pegamos os índices mainstream, como o Big Mac e o Iphone, percebemos uma certa relação com os índices de preços e a taxa de câmbio praticada no Brasil nos últimos anos, haja visto que em qualquer dessas abordagens o Brasil, ou mais especificamente o Real, se mostra em defasagem se comparado ao dólar.

https://economia.terra.com.br/operacoes-cambiais/pessoa-fisica/entenda-como-e-calculada-a-paridade-de-poder-de-compra,05b62ebe54082410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

http://blog.rico.com.vc/bid/76106/Poder-de-Compra-X-Taxa-de-C-mbio

http://observatorio-das-desigualdades.cies.iscte.pt/index.jsp?page=indicators&id=123

(Palaia & Holland) –http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-80502010000100001

http://g1.globo.com/economia/noticia/2016/01/com-desvalorizacao-do-real-brasil-cai-para-14-posicao-no-indice-big-mac.html

http://www.infomoney.com.br/blogs/investimentos-bem-pensados/post/3818331/quanto-alta-dolar-afetou-nosso-poder-compra

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